
Renato Asse (*)
Durante muito tempo, construir uma startup parecia um desafio reservado a equipes multidisciplinares, com desenvolvedores, designers, especialistas em marketing e uma boa dose de capital inicial. Hoje, esse cenário está sendo radicalmente reescrito. Sem alarde, uma revolução silenciosa tem ganhado corpo: a ascensão do solopreneur digital, um novo tipo de empreendedor solo, habilitado por ferramentas no-code e inteligência artificial generativa. Não se trata mais de um freelancer com habilidades técnicas pontuais ou do conhecido MEI que presta serviços sob demanda. Esse novo protagonista é alguém capaz de idealizar, construir, automatizar e escalar produtos digitais completos por conta própria. E mais: faz isso em um ritmo que deixaria muitos times inteiros para trás.
A transformação não veio de uma ruptura súbita, mas de um amadurecimento tecnológico progressivo. Plataformas como Bubble, N8N e Supabase, somadas à popularização da IA generativa, criaram uma infraestrutura acessível, onde o conhecimento de programação deixou de ser um pré-requisito absoluto. Segundo a Gartner, até 2025, 70% dos novos sistemas corporativos serão construídos com plataformas no-code ou low-code — uma projeção que confirma a consolidação desse novo modelo de criação. Com essas ferramentas, é possível lançar produtos completos, integrar sistemas complexos e automatizar processos, tudo com pouco ou nenhum código.
O impacto disso é profundo. Solopreneurs conseguem hoje validar ideias em semanas, ajustar a rota com base em dados reais e partir para o crescimento com estruturas enxutas e funcionais. Atendimentos automatizados, rotinas financeiras operando sozinhas, geração de conteúdo e até suporte técnico feito por IA, o que antes exigiria uma equipe inteira, agora pode ser conduzido por uma única pessoa com um laptop conectado à nuvem. A McKinsey estima que a IA generativa pode aumentar a produtividade em até 40% em tarefas como atendimento ao cliente, marketing e desenvolvimento de produtos, o que representa um ganho operacional gigantesco para quem trabalha sozinho.
Esse novo modelo desafia diretamente a lógica tradicional de que escalar um negócio exige, desde o início, uma equipe robusta e investimentos altos. Nos Estados Unidos, mais de 27 milhões de negócios operam sem empregados, segundo o U.S. Census Bureau, um número que cresceu 10% entre 2020 e 2022. Paralelamente, o uso de ferramentas de IA disparou nos últimos anos. Dados da OpenAI e da SimilarWeb mostram que o uso empresarial de IAs como o ChatGPT cresceu mais de 10 vezes desde 2022, o que comprova a adesão massiva de microempreendedores e criadores solo.
Claro, nada disso elimina a necessidade de visão estratégica, execução disciplinada e entendimento profundo dos problemas que se quer resolver. Mas o que antes era inatingível para quem estava sozinho, agora é uma possibilidade concreta e crescente. O solopreneur digital deixa de ser um coadjuvante no ecossistema empreendedor e assume o protagonismo como criador de soluções escaláveis, sustentáveis e inovadoras. O futuro das startups pode, sim, começar com uma só pessoa, desde que ela tenha as ferramentas certas nas mãos e a clareza de que, no jogo da inovação, tamanho já não é mais documento.
(*) Fundador da Comunidade Sem Codar, a maior escola de No Code e IA da América Latina, com mais de 20 mil membros, já tendo implementado Agentes de Inteligência Artificial em empresas com 13 mil colaboradores.



