
Gustavo Alonge Furtado (*)
Vivemos uma era em que a autoridade deixou de ser construída apenas pelo conhecimento e passou a ser medida pelo alcance. Um médico dedica décadas ao estudo da medicina. Um pesquisador passa anos produzindo evidências científicas. Um farmacêutico responde técnica e legalmente pelos produtos que comercializa. Enquanto isso, um influenciador com milhões de seguidores pode, em poucos segundos, recomendar um medicamento, um suplemento ou uma caneta emagrecedora para uma audiência maior do que a de muitos veículos de comunicação. A diferença é que nem sempre essa influência vem acompanhada de responsabilidade.
O caso recente da promoção, por celebridades e influenciadores brasileiros, de canetas emagrecedoras produzidas no Paraguai e sem registro na Anvisa escancara um problema que vai muito além da publicidade irregular. Trata-se de uma crise de autoridade, ética e saúde pública.
Quando um influenciador divulga um produto dessa natureza, pouco importa se houve pagamento direto, hospedagem, convite para um evento ou qualquer outro benefício indireto. O efeito é o mesmo: milhões de pessoas recebem uma mensagem de credibilidade. Afinal, quem acompanha diariamente aquela personalidade tende a acreditar que ela jamais indicaria algo que pudesse colocar sua saúde em risco.
É justamente aí que reside o perigo.
As redes sociais transformaram a confiança em moeda de alto valor econômico. Empresas descobriram que a recomendação de uma celebridade muitas vezes convence mais do que qualquer campanha publicitária tradicional. O problema começa quando essa lógica ultrapassa os limites da moda, da gastronomia ou do entretenimento e invade áreas em que erros podem custar vidas.
Medicamentos não são cosméticos. Tratamentos médicos não são tendências de internet. Produtos destinados ao emagrecimento não podem ser apresentados como objetos de desejo impulsionados por curtidas e algoritmos.
A legislação brasileira é clara ao restringir a publicidade de medicamentos sujeitos à prescrição médica. Mais ainda quando se trata de produtos sem registro sanitário no país. A exigência de aprovação pela Anvisa não representa um entrave burocrático. É uma proteção construída justamente para garantir que aquilo que chega às mãos da população passou por avaliações rigorosas de eficácia, qualidade e segurança.
Ignorar esse processo significa expor consumidores a riscos imprevisíveis.
Mas o debate não deve se limitar à esfera jurídica.
Existe uma responsabilidade moral que antecede qualquer multa, ação civil ou investigação criminal. Quem influencia milhões de pessoas assume, queira ou não, um compromisso com a sociedade. O número de seguidores não é apenas um ativo comercial; é também um fator de responsabilidade proporcional ao impacto das mensagens transmitidas.
A cultura da monetização permanente parece ter apagado essa percepção. Hoje, muitos perfis promovem investimentos, medicamentos, suplementos, procedimentos estéticos, apostas esportivas e produtos importados sem qualquer análise crítica. A lógica é simples: se gera engajamento e receita, vale a publicação.
Essa lógica precisa ser enfrentada.
O mais preocupante é que muitas dessas recomendações partem de pessoas sem qualquer formação técnica na área em que opinam. Não é ilegal que alguém fale sobre saúde sem ser médico. O problema surge quando essa fala passa a substituir o conhecimento especializado na percepção do público. A influência digital cria uma falsa autoridade, capaz de competir com profissionais que dedicaram a vida inteira ao estudo.
Esse fenômeno produz um efeito perverso.
Enquanto médicos, pesquisadores e instituições científicas concentram seus esforços em atender pacientes, produzir conhecimento e aperfeiçoar tratamentos, muitos deixam de ocupar os espaços de comunicação. O resultado é previsível: quem domina as estratégias de marketing conquista visibilidade; quem domina a ciência permanece restrito aos consultórios, hospitais e universidades.
Criou-se uma inversão preocupante. Em diversos temas ligados à saúde, quem mais aparece nem sempre é quem mais sabe.
Não basta responsabilizar influenciadores quando o dano já aconteceu. É preciso fortalecer as vozes que realmente possuem autoridade técnica.
Os profissionais sérios da saúde precisam compreender que comunicar também faz parte de sua missão. Produzir conteúdo confiável, combater desinformação e ocupar as redes sociais deixou de ser apenas uma estratégia de marketing. Tornou-se um compromisso com a saúde coletiva.
Existe uma conhecida frase atribuída a Edmund Burke segundo a qual o mal triunfa quando os bons permanecem inertes. Adaptada aos tempos digitais, ela continua atual. Quando especialistas se calam, alguém ocupará esse espaço. E nem sempre será alguém comprometido com a verdade.
Também cabe às empresas agir com responsabilidade. Laboratórios, fabricantes, distribuidores e plataformas digitais não podem tratar a influência como simples ferramenta de vendas. Produtos relacionados à saúde exigem critérios éticos muito superiores aos utilizados em campanhas de consumo comum.
As plataformas digitais igualmente precisam assumir sua parcela de responsabilidade. Seus algoritmos amplificam conteúdos sem distinguir competência técnica de popularidade. A consequência é que uma informação equivocada pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, enquanto uma orientação médica baseada em evidências permanece limitada a um público reduzido.
O episódio das canetas emagrecedoras vindas do Paraguai serve como alerta para um problema maior. Amanhã poderá ser outro medicamento, outro tratamento milagroso ou outra promessa de resultados instantâneos. O mecanismo será o mesmo: confiança transformada em mercadoria.
A liberdade de expressão jamais pode servir de escudo para práticas que coloquem vidas em risco. Da mesma forma, a influência digital não pode ser confundida com licença para promover produtos cuja segurança não foi comprovada pelas autoridades sanitárias brasileiras.
No ambiente digital, a credibilidade tornou-se um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea. Mas toda credibilidade gera deveres. Quem escolhe influenciar pessoas também escolhe responder pelas consequências dessa influência.
Quando o assunto é saúde, não existe espaço para improviso, marketing irresponsável ou atalhos comerciais. O preço de uma publicidade enganosa pode ser muito maior do que uma multa. Pode ser pago com a saúde e, em casos extremos, com a própria vida.
(*) Especialista em Marketing Digital e diretor da Engajatech.




