Ana Luisa Winckler (*)
Não foi no BBB. Foi onde sempre deixamos passar.
Quando um episódio de assédio vira pauta nacional, a sociedade entra naquele modo clássico: indignação performática, análise moral e opinião definitiva no sofá.
Todo mundo vira especialista em limite.
Por 48 horas.
Depois, vida que segue.
Inclusive para quem assedia.
Porque o grande incômodo nunca é o ato.
É ele ter sido visto.
O BBB (Big Brother Brasil) só cometeu um pecado imperdoável: ligou a câmera.
Se fosse no ônibus, seria “falta de espaço”.
Se fosse no bar, “climinha”.
Se fosse na firma, “brincadeira”.
Se fosse na escola, “coisa de adolescente”.
Se fosse no WhatsApp, “interpretação errada”, de preferência acompanhada de “kkkk”.
Dados mostram que 47% das mulheres brasileiras já sofreram assédio sexual em algum momento da vida, cerca de 30 milhões de mulheres. E quase metade desses casos relatados ocorreu no ambiente de trabalho, com a maioria ficando sem registro oficial por falta de confiança nas respostas institucionais.
Assédio no Brasil raramente se apresenta como vilão de novela.
Ele chega educado.
Bem-humorado.
Confiante demais.
E quase sempre protegido por cargo, reputação ou silêncio alheio.
Em um relato real, uma mulher disse: “Eu não gritei porque não parecia grave o suficiente. Só descobri depois que fiquei anos me encolhendo.”
É assim que funciona.
Não como explosão.
Mas como erosão.
Outro relato, também real, resume o que nenhuma política corporativa costuma medir: “O pior não foi o toque. Foi perceber que todo mundo viu, e fingiu que não.”
Porque assédio não é só o gesto.
É o entorno que autoriza.
É a risada que normaliza.
É o “deixa disso” que educa corpos a se calarem.
No mundo do trabalho, então, isso vira quase um curso avançado de sobrevivência emocional.
Aprende-se rápido onde se sentar, como vestir, quando rir, quando recuar, como dizer não sem ferir egos, e, principalmente, como não virar “a pessoa difícil”.
Denunciar custa caro.
Ficar em silêncio custa a saúde.
O episódio do BBB incomoda porque desmonta o mito preferido: o de que isso é exceção.
Não é.
É cotidiano.
Só não costuma ser televisionado.
E talvez o maior desconforto não seja o que aconteceu.
Mas o espelho que ele levanta.
Porque falar de assédio obriga a rever piadas antigas, neutralidades convenientes e silêncios bem-educados.
Na Outra Sala, a gente não trata isso como escândalo pontual.
Trata como cultura.
E a pergunta que fica não é sobre o reality show da semana.
É sobre quantas vezes isso já passou na sua frente — e você chamou de outra coisa.
Crescemos aprendendo a nomear corpos, mas não limites.
A interpretar silêncios como consentimento.
A tratar desconforto como exagero.
A confundir acesso com direito.
E no mundo do trabalho, isso ganha contornos ainda mais delicados.
Porque ali, além do corpo, há hierarquia.
Além do constrangimento, há medo.
Além da violência simbólica, há o risco real de retaliação, exclusão ou estagnação.
Quantas pessoas seguem trabalhando ao lado de quem as constrangeu?
Quantas mudam de equipe, de turno, de carreira — enquanto o agressor muda apenas de assunto?
Quantas aprendem a rir, endurecer, engolir, por que denunciar custa caro demais?
O episódio do BBB incomoda porque tira o véu.
Mostra que não é sobre monstros raros.
É sobre comportamentos comuns demais.
E talvez o maior desconforto não seja o que aconteceu.
Mas o espelho que ele levanta.
Porque, se a gente for honesto, vai perceber que isso não é “sobre eles”.
É sobre uma cultura inteira que ainda ensina a ultrapassar antes de ensinar a respeitar.
Falar de assédio não estraga o clima.
O que estraga o clima é fingir que ele não existe.
E enquanto a discussão ficar restrita ao reality show da semana, a vida real – essa sem câmeras, sem edição e sem votação – segue acontecendo exatamente como sempre aconteceu.
Na outra sala.
No outro corredor.
No silêncio de quem aprendeu que, muitas vezes, sobreviver é ficar quieta.
Até quando?
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

