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E se o problema não fosse perder… mas não saber o que fazer depois da derrota?

em A Outra Sala
terça-feira, 07 de julho de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

A Copa acabou. Mas talvez a conversa mais importante tenha começado agora.

A Copa tem um efeito raro no Brasil.

Durante algumas semanas, ela suspende discussões, aproxima desconhecidos, colore ruas, invade empresas, reúne famílias e nos lembra que ainda existem experiências capazes de nos fazer vibrar coletivamente.

É um respiro.

Mas, desta vez, esse respiro veio com patrocinadores demais.

A paixão continuou sendo pelo futebol. O faturamento, nem tanto.

Entre um gol e outro, aprendemos que toda emoção pode ser monetizada. Álbuns de figurinhas que custam uma pequena fortuna. Camisas que valem quase um boleto. Influenciadores transformando escalação em conteúdo. Plataformas de apostas vendendo a sedutora ilusão de que o próximo lance pode mudar a sua vida.

Nunca foi tão fácil comprar esperança.

Nem tão caro perdê-la.

Foi nesse cenário que a internet se encheu de vídeos de crianças queimando seus álbuns de figurinhas depois da derrota.

Teve quem chamasse de exagero. Quem culpasse os pais. Quem decretasse, com nostalgia seletiva, que “na nossa época isso não existia”.

Mas talvez estejamos olhando para a cena errada.

O álbum nunca foi apenas um álbum.

Ele é tempo.

É expectativa.

É dinheiro economizado.

É a figurinha rara conquistada depois de dezenas de trocas.

É o recreio.

É a conversa com os amigos.

É a fantasia de que, no final, tudo daria certo.

Quando o fogo começa, não é o papel que está queimando.

É uma narrativa.

A de que o esforço sempre garante o resultado.

A de que acreditar basta.

A de que perder é uma falha, e não uma parte inevitável da experiência humana.

Na Psicologia Prismática, entendemos que nenhum comportamento nasce sozinho. Antes dele existe um contexto. E talvez estejamos formando uma geração cercada por estímulos para desejar mais, consumir mais, competir mais, apostar mais… enquanto oferecemos cada vez menos repertório para lidar com a frustração.

Quando falta linguagem, sobra comportamento.

A criança queima o álbum.

O adulto pede demissão por impulso.

Bloqueia alguém depois de uma discussão.

Rompe amizades de anos por uma divergência.

Abandona um projeto porque recebeu uma crítica.

Troca de empresa, de relacionamento ou de propósito acreditando que o problema mora sempre do lado de fora.

Mudam os objetos.

O mecanismo continua trabalhando em horário comercial.

Talvez aquelas imagens tenham provocado tanto impacto porque não vimos apenas crianças queimando papel.

Vimos crianças tentando dar um destino concreto a uma emoção que ainda não sabiam nomear.

Porque aquele álbum nunca custou apenas dinheiro.

Custou expectativa.

E expectativa também se aprende.

Vivemos em uma cultura extraordinariamente preparada para ensinar pessoas a performar.

A desejar.

A competir.

A acumular.

A produzir.

Mas profundamente despreparada para ensinar o que fazer quando a realidade responde um simples e devastador “não”.

Celebramos a alta performance.

Esquecemos da alta tolerância à frustração.

Depois nos perguntamos por que uma derrota vira tragédia, uma crítica vira ataque pessoal e um fracasso profissional parece o fim da identidade.

O problema nunca foi perder.

O problema começa quando confundimos resultado com valor pessoal.

Quando acreditamos que, se o sonho não aconteceu, talvez quem devesse desaparecer fôssemos nós.

Essa talvez seja uma das competências mais urgentes do nosso tempo.

Não a resiliência plastificada dos discursos motivacionais, sempre acompanhados de uma caneca de café e da frase “você consegue”.

Mas a capacidade de permanecer inteiro quando a realidade simplesmente não confirma nossas expectativas.

Perder um jogo dói.

Perder uma promoção.

Um relacionamento.

Um projeto.

Um sonho.

Tudo isso faz parte da vida.

O que não deveria fazer parte é a necessidade de transformar cada frustração em cinzas para conseguir seguir adiante.

Porque maturidade emocional talvez seja exatamente isso:

Olhar para um álbum que nunca será completado… e, ainda assim, decidir começar outro.

Talvez o maior adversário desta Copa não tenha sido o time que nos eliminou.

Talvez tenha sido a cultura que nos ensinou a apostar em tudo, consumir tudo, performar o tempo todo… mas nunca nos ensinou que perder também faz parte da educação emocional.

Imagem: Feito com IA. Pensado por HI (Human Intelligence).
A tecnologia ilustrou. Eu fiz o trabalho mais difícil: pensar.

Roteiro, conceito, direção de arte e crises existenciais: Ana Winckler.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

“O ringue é só o sintoma”(Ou por que algumas empresas preferem soco a escuta) – Jornal Empresas & Negócios