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Currículos Brilhantes. Maturidade Opcional.

em A Outra Sala
terça-feira, 09 de junho de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Tem gente com inglês fluente.

MBA.

Certificação internacional.

Liderança ágil.

Pensamento estratégico.

Inteligência artificial.

E um colapso emocional porque recebeu um feedback de melhoria.

Ou porque alguém discordou numa reunião.

Ou porque a promoção não veio.

Ou porque a vida teve a audácia de não seguir o cronograma.

Talvez a gente precise conversar sobre uma hipótese desconfortável:

Estamos formando profissionais extraordinariamente funcionais e emocionalmente despreparados para a realidade.

Durante décadas, a educação, o mercado e a cultura corporativa treinaram pessoas para acertar.

Acertar a resposta.

Acertar a entrega.

Acertar a meta.

Acertar o plano de carreira.

Acertar a vida.

O problema é que a vida não funciona por indicadores.

Ela não lê PowerPoint.

Não respeita cronograma.

Não pergunta se estamos prontos.

Ela simplesmente acontece.

E é justamente aí que muitos adultos considerados bem-sucedidos entram em curto-circuito.

Não porque sejam incompetentes.

Mas porque foram treinados para controlar variáveis, não para conviver com incertezas.

O mercado premiou quem entrega.

A escola premiou quem acerta.

As redes sociais premiam quem performa.

Mas quem ensina alguém a fracassar?

Quem ensina alguém a esperar?

Quem ensina alguém a ouvir um “não” sem interpretar isso como uma ameaça à própria identidade?

Uma das maiores pegadinhas do nosso tempo foi nos convencer de que competência e maturidade são a mesma coisa.

Não são.

Competência é saber fazer.

Maturidade é saber continuar quando não consegue.

Competência é liderar um projeto.

Maturidade é liderar a si mesmo depois de um fracasso.

Competência é construir um planejamento estratégico.

Maturidade é sobreviver quando o planejamento morre.

E quase todos os planejamentos morrem.

Os números ajudam a contar essa história.

Apesar de sermos uma das gerações mais treinadas, conectadas e expostas a conteúdos sobre desenvolvimento humano, estudos internacionais apontam aumento consistente de ansiedade, sofrimento psicológico e sensação de insuficiência entre jovens adultos nos últimos anos.

É um paradoxo curioso.

Nunca tivemos tanto acesso à informação.

E nunca parecemos tão despreparados para lidar com frustração.

Talvez porque informação não produza maturidade.

Experiência produz.

Limite produz.

Perda produz.

Tempo produz.

Existe ainda outro ingrediente nessa equação: a cultura da otimização.

Hoje não basta trabalhar.

É preciso performar.

Não basta descansar.

É preciso descansar de forma produtiva.

Não basta viver.

É preciso transformar a experiência em conteúdo.

Estamos convertendo a existência em uma planilha emocional.

Tudo precisa gerar resultado.

Tudo precisa ser mensurado.

Tudo precisa ser melhorado.

Mas algumas das competências mais importantes da vida não cabem em indicadores.

Como sustentar uma espera.

Elaborar um luto.

Reconhecer um erro.

Recomeçar.

Ou simplesmente admitir que nem tudo depende de nós.

Às vezes imagino um recrutador do futuro abrindo um currículo.

Ele encontra inglês fluente, Power BI, inteligência artificial, gestão de indicadores, liderança estratégica e dezenas de certificações.

Então faz uma única pergunta:

“O que acontece com essa pessoa quando a realidade não colabora?”

Porque talvez essa seja a competência mais escassa da próxima década.

Não programar.

Não liderar.

Não vender.

Não inovar.

Mas continuar inteiro quando os resultados desaparecem.

Talvez o problema não seja que estamos criando adultos frágeis.

Talvez estejamos criando adultos altamente treinados para o sucesso e perigosamente despreparados para a condição humana.

E a condição humana, para desgosto de todos os planejamentos estratégicos, continua incluindo perda.

Continua incluindo espera.

Continua incluindo erro.

Continua incluindo sofrimento.

A vida segue cobrando habilidades que nunca apareceram no LinkedIn.

E, pelo visto, nem no currículo.

A Outra Sala
Porque entre a meta batida e o próximo objetivo existe uma pergunta que quase ninguém faz:Quem você é quando aquilo que você sabe fazer já não é suficiente?

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.