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A Solidão Entrou na Reunião. Está sem Câmera.

em A Outra Sala
terça-feira, 22 de setembro de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

A Solidão foi contratada há alguns anos. Ninguém sabe exatamente por qual área porque, como acontece com metade dos projetos corporativos, ela apareceu numa reunião e foi ficando.

Recebeu crachá, acesso ao Teams e um onboarding de quatro horas sobre pertencimento. Adaptou-se rapidamente. Hoje trabalha no modelo híbrido, transita entre departamentos e tem presença confirmada em praticamente todas as reuniões. Nunca se atrasa. Às vezes, chega antes das pessoas.

Sua agenda é exemplar.

Às nove, alinhamento. Às dez, integração. Às onze, reunião do comitê de engajamento. Depois do almoço, workshop sobre segurança psicológica, durante o qual todos são convidados a compartilhar vulnerabilidades… desde que não atrasem o cronograma, não comprometam a avaliação de desempenho e escolham uma vulnerabilidade compatível com o cargo.

A empresa está muito preocupada com conexão. Criou canais, comunidades, grupos, cafés virtuais e uma pesquisa para saber se as pessoas sentem que pertencem. A pesquisa é anônima, embora peça área, idade, tempo de empresa, cargo e, daqui a pouco, o nome da primeira professora.

Nunca estivemos tão conectados. Tenho, inclusive, três aplicativos diferentes para descobrir que ninguém vai me responder.

A Organização Mundial da Saúde estima que uma em cada seis pessoas no mundo vivencie solidão. Não é um dado específico sobre empresas, mas deveria interessá-las: parte considerável da vida adulta acontece dentro do trabalho, inclusive a parte em que fingimos estar apenas “um pouco cansados”.

A OIT, Organização Internacional do Trabalho, também vem insistindo que o ambiente psicossocial não depende apenas da resistência emocional de cada trabalhador. Ele é produzido pelo desenho das atividades, pela forma como o trabalho é organizado, pelas práticas de gestão e pela cultura. Traduzindo: talvez o problema não seja a pessoa que “não se integra”. Talvez seja o lugar que só permite relações úteis.

E a Solidão não se distribui democraticamente pela empresa. Tem seus lugares preferidos.

Senta-se ao lado de quem pensa antes de falar e descobre que a pauta já mudou. Acompanha quem ensaia uma discordância enquanto calcula se será interpretado como brilhante, difícil, sensível demais ou “ainda pouco maduro para o cargo”. Faz companhia a quem passa o dia traduzindo sotaque, corpo, cabelo, silêncio, intensidade, origem, idade ou funcionamento mental para o idioma oficial da cultura.

Toda organização tem uma língua materna. Alguns chegam fluentes. Outros trabalham com legenda.

Por isso, a mesma reunião pode ser espaço de influência para uma pessoa e exame de proficiência para outra. O mesmo “seja você mesmo” pode soar como liberdade para quem corresponde ao padrão e como uma emboscada simpática para quem já descobriu que certas versões de si são mais promovíveis do que outras.

Talvez a solidão corporativa não seja apenas falta de companhia. Talvez seja o cansaço de estar sempre acompanhado e, ainda assim, precisar traduzir-se para ser aceito.

Para não chamar qualquer troca de mensagem de conexão, proponho uma régua simples. Há presença, quando as pessoas ocupam o mesmo espaço. Há participação, quando conseguem entrar na conversa. E há pertencimento, quando podem existir ali sem representar permanentemente a versão corporativa de si mesmas.

Uma reunião cheia comprova presença. Uma rodada de opiniões pode produzir participação. Pertencimento é outra coisa: exige que discordar não custe reputação, que pedir ajuda não seja interpretado como incompetência e que alguém perceba sua ausência antes de o sistema mudar sua bolinha para cinza.

É possível trabalhar sozinho e sentir-se acompanhado. Também é possível passar oito horas num escritório aberto, participar de seis reuniões, receber quarenta mensagens e voltar para casa com a estranha impressão de que ninguém o encontrou.

Porque algumas organizações não aproximam pessoas. Apenas encostam funções.

Querem colaboração, mas premiam competição. Pedem autenticidade, mas promovem quem domina melhor o personagem. Celebram a vulnerabilidade no palco e a registram como fragilidade na sucessão.

Nesse ambiente, afastar-se nem sempre é incapacidade de criar vínculos. Às vezes é autoproteção. A pessoa não perdeu o interesse pelas pessoas; apenas percebeu que qualquer frase pode virar evidência, encaminhamento ou “ponto de desenvolvimento”.

A Solidão, enquanto isso, segue muito bem avaliada. É discreta, não contesta a liderança e jamais cria conflito.

Passou o dia inteiro com vinte e três pessoas.

Ninguém falou realmente com ninguém.

Mas a agenda ficou completamente cheia.

Créditos

Conceito, roteiro e direção autoral: Ana Luisa Winckler
Ilustração criada com apoio de inteligência artificial generativa — OpenAI
Para a coluna A Outra Sala, do Jornal Empresas & Negócios.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

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