Neiva Dourado Mendes (*)
Há sete anos, trocamos a capital por uma cidade do interior de São Paulo. Um condomínio cercado pela Mata Atlântica, verde por todos os lados, pássaros e aquela sensação de que a vida respira. Eu amo a natureza, mas morro de medo de insetos. Pode soar contraditório, mas não é. Justamente por respeitar a natureza, faço questão de manter cada ser vivo no seu devido lugar: eles lá fora, eu cá dentro. A casa é cuidada, organizada, vedada. Um acordo entre espécies.
Até que o clima resolveu interferir. Ondas de calor sucessivas, daquelas que derretem o asfalto. E então elas surgiram. Baratas. Não essas baratinhas do interior, mas as versões paulistanas, robustas, quase com placa e documentação, mais parecidas com um ônibus do que com um inseto. Longe de mim devem estar. Muito longe. Tenho pavor!
Antes da visita indesejada, havia uma pendência. Uma daquelas tarefas domésticas que entram numa espécie de limbo. O forro da cama box do quarto de hóspedes precisava ser trocado, há anos estava furado. Nada complexo: grampeador manual de tapeceiro (comprei a versão manual e infelizmente exige força), grampos certos, tecido escolhido. Tudo comprado, tudo disponível. Mas a execução… ah, essa ficou para depois.
A demanda recaía sobre o meu cara-metade. Ele tem mais força para o grampeador. E assim entrava sábado, saía domingo, e nada. Um gol a mais no futebol. Só mais um episódio do dorama. “Esse é o último capítulo”, nunca era. Quatro meses se passaram. Talvez mais. O tempo, nesse território da procrastinação, perde a referência.
Até que, às 3h desta manhã, a barata resolveu conhecer o quarto de hóspedes. E foi por puro acaso que dei de cara com ela. O escândalo foi proporcional ao tamanho do inseto. Gritos, pulos, coração disparado. Quase acordei a vizinha. A barata foi defenestrada com a urgência que só o pânico é capaz de produzir. O quarto foi bombardeado com inseticida e ficará meses sem visitantes. E, como num milagre neurobiológico, o forro da cama foi trocado. Em duas horas. Uma pendência de meses, quiçá anos, resolvida sob a ameaça de seis patas.
E aí surge a pergunta inevitável: o que faz o ser humano postergar continuamente aquilo que pode resolver agora? A neurociência tem algumas respostas. Procrastinar não é preguiça. É regulação emocional. Nosso cérebro, especialmente o sistema límbico, é guiado pelo princípio do prazer e da evitação da dor. Tarefas chatas, físicas, sem recompensa imediata, ativam áreas associadas ao desconforto. Já o sofá, a cama, o celular, o futebol e o dorama oferecem dopamina rápida, aquela sensação gostosa de alívio e recompensa instantânea.
O córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, decisões e autocontrole, até tenta argumentar: “É simples, é rápido, depois você descansa”. Mas ele é facilmente sabotado pela amígdala, que reage ao que é emocionalmente mais atraente agora. O curioso é que, quando a ameaça se torna concreta, real, iminente, e neste caso, rastejante, o cérebro entra em modo de ação. A dopamina deixa de vir do conforto e passa a vir da resolução. Resolver vira quase uma questão de sobrevivência. O corpo se mobiliza, o foco aparece, a força surge. O que era evitado se transforma em prioridade absoluta.
Talvez a barata não seja apenas um inseto. Talvez seja uma metáfora perfeita do que evitamos até que se torne insuportável. Relacionamentos abusivos, decisões, conversas difíceis, tarefas simples que se acumulam. E nas empresas, vemos mudanças necessárias em processos, ações sobre as reclamações dos clientes. Esperamos o caos para agir, quando poderíamos escolher o movimento antes do pânico.
No fim, não foi o grampeador, nem o tecido, nem o tempo que faltavam. Faltava um cérebro suficientemente motivado. E, ironicamente, uma barata nos ensina uma lição sobre comportamento humano: não é a complexidade da tarefa que nos paralisa, é a ausência de urgência emocional. Se eu pudesse escolher, preferiria aprender isso sem inseticida às três da manhã. Mas o cérebro, ao que tudo indica, age mais rápido quando o medo bate à porta, ou quando cruza o quarto de hóspedes.
(*) Atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia.
