O maior amor de todos

em A Mente do Cliente
terça-feira, 29 de setembro de 2026

 Neiva Dourado Martins Mendes (*)

Há alguns dias, vi um vídeo de um jovem cantando “The Greatest Love of All”, creio que quase todo mundo já tenha visto. Um jovem simples, aparentemente com muito pouco, cantando com tudo o que tinha. Creio que muitos riram do inglês inventado, das palavras que ele criava para caber na música; eu não ri, chorei e chorei muito. Porque pouco importava se aquele inglês existia ou não; existia a música e, principalmente, a vontade imensa de cantar.

Ele cantava com paixão, força e orgulho, como se não houvesse pobreza ou falta de oportunidades, ou alguém ou algo capaz de lhe dizer que aquele lugar não lhe pertencia.

Aquilo me levou para muito longe; voltei aos meus 16 anos, quando ouvi pela primeira vez “The Greatest Love of All” na voz de George Benson. A gravação de Whitney Houston viria oito anos depois. Também chorei naquela primeira vez, em 1977.

Uma música nunca chega sozinha. Ela chega acompanhada de nossa vida, do lugar onde estamos, das esperanças, dos medos e de tudo o que acontece ao nosso redor. O Brasil vivia uma ditadura. Naquele ano, o general Ernesto Geisel fechou temporariamente o Congresso Nacional e impôs o chamado Pacote de Abril, adiando mais uma vez o retorno à democracia.

Mas 1977 também foi ano de resistência; Goffredo da Silva Telles Jr. leu, no Largo de São Francisco, a histórica Carta aos Brasileiros, em defesa da democracia. O movimento estudantil ressurgia e os trabalhadores voltavam a se mobilizar, e eu só tinha 16 anos.

Mal compreendia a dimensão histórica de tudo aquilo, mas algumas coisas a gente sente antes mesmo de poder explicá-las, e a emoção que “The Greatest Love of All” gerava era uma delas.

Ela foi escrita para o filme The Greatest, filme sobre a trajetória do atleta Muhammad Ali. Não poderia haver melhor personagem para aquela canção. Ali foi revolucionário no ringue; meu pai amava vê-lo lutar! Mas sua grandeza era muito maior que o boxe. Homem negro, enfrentou o racismo e a opressão, recusou-se a servir na Guerra do Vietnã, pagando um preço enorme por suas convicções.

Quase cinquenta anos depois, vejo aquele jovem cantando uma música que talvez não consiga pronunciar em inglês, mas que parece compreender com a alma. E aí tudo se conecta: 1977 e hoje, Muhammad Ali e aquele jovem simples, os meus 16 anos e os meus olhos de agora e bate uma tristeza imensa! Em quase cinquenta anos, avançamos tanto. A tecnologia transformou o mundo; carregamos no bolso coisas que naquela época seriam possíveis só no desenho animado dos Jetsons. Inteligência artificial, medicina, comunicação, ciência, fizemos coisas extraordinárias! Mas, quando olho para aquele jovem, penso no quanto avançamos pouco naquilo que talvez fosse mais importante.

Continuamos convivendo com desigualdades imensas, lutando contra o racismo, precisando defender a democracia, encontrando pessoas a quem faltaram oportunidades tão básicas que aprender uma língua estrangeira parece coisa de outro mundo. E, mesmo assim, aquele jovem canta! Talvez tenha sido isso que me fez chorar tanto. Ele não esperou aprender inglês, não esperou ter a roupa certa, a pronúncia certa, o lugar certo ou a vida certa; ele só cantou.

Fez caber sua vida na música e colocou algo que conhecia muito bem: sentimento.

E possivelmente, sem saber exatamente o que dizia cada palavra, tenha compreendido profundamente a mensagem que aquela canção carrega há quase cinquenta anos: a luta continua! A luta pela democracia, contra o racismo, contra a opressão e para que talento e dignidade não dependam do lugar onde alguém nasceu. Mas existe também aquela que travamos dentro de nós para não permitir que o mundo determine o nosso valor.

(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).

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