Guibson Trindade (*)
Há um desconforto constante na experiência de pessoas negras no Brasil que ainda é pouco nomeado: a estética como campo de vigilância racial. Não se trata de gosto ou estilo, mas de um sistema que transforma a aparência em critério de avaliação, suspeita e sanção. Corpos negros são interpretados antes mesmo de qualquer enunciação, inscritos em códigos que os antecedem. A cena é conhecida: uma pessoa branca de chinelo e jeans passa sem gerar ruído; uma pessoa negra com a mesma roupa perde a neutralidade e ativa outras leituras — o que era conforto vira desleixo, o banal se torna inadequado e, em casos mais extremos, a presença é vista como ameaça. Não é exceção, é padrão.
Esse deslocamento de sentido não é fortuito. Levantamentos do IBGE indicam que cerca de 84% das pessoas pretas afirmam já ter sofrido discriminação racial em situações cotidianas. Isso revela um ambiente social em que o julgamento não é episódico, mas reiterado, previsível e frequentemente antecipado como estratégia de autoproteção. Ele se ancora em uma longa tradição de construção racial que associa a população negra a lugares de informalidade, subalternidade e risco. A estética, nesse arranjo, deixa de ser expressão e passa a operar como tecnologia de controle simbólico. Como se a aparência de pessoas negras precisasse, continuamente, corrigir uma suspeita prévia que nunca se dissipa por completo.
Esse acúmulo de experiências tem efeitos mensuráveis. Estudos produzidos pela Fiocruz e pelo IPEA mostram que a população negra está mais exposta a estresse crônico, ansiedade e outras formas de sofrimento psíquico associadas à discriminação recorrente. Trata-se menos de eventos isolados e mais de uma condição contínua de alerta, uma vigilância permanente sobre si, que exige controle constante da própria imagem, do corpo e da forma de se apresentar. No mundo do trabalho, essa dinâmica se intensifica e ganha contornos institucionais. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do INSS. É o maior número da série histórica e evidencia um cenário de adoecimento que já não pode ser tratado como exceção ou desvio.
Há, no entanto, um silêncio relevante nesses números. As estatísticas não são sistematicamente apresentadas com recorte racial. Sabe-se que o país adoece, mas não se identifica, com a precisão necessária, quem adoece mais, em quais condições e sob quais pressões. Essa ausência não é apenas uma lacuna metodológica. Ela tem implicações políticas diretas. Ao não nomear a desigualdade, dificulta-se sua gestão e, sobretudo, sua superação.
Ainda assim, há sinais de inflexão. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que trata das disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho, passou a incorporar de forma mais explícita os chamados riscos psicossociais. A mudança reconhece que fatores como pressão contínua, ambientes hostis, assédio e insegurança impactam diretamente a saúde dos trabalhadores. Trata-se de um avanço importante, sobretudo em um contexto em que o sofrimento psíquico começa a ser reconhecido como questão laboral.
O problema é que, ao tratar esses riscos de forma genérica, a norma não alcança as maneiras específicas pelas quais eles se distribuem de forma desigual. A experiência de uma pessoa negra no ambiente de trabalho não é atravessada apenas por metas, prazos ou hierarquias. Ela é também marcada por avaliações constantes de sua aparência, por suspeições antecipadas e por uma exigência permanente de autocorreção. A estética, nesse cenário, deixa de ser detalhe cultural e passa a atuar como fator silencioso de risco psicossocial.
Quando essas camadas não são nomeadas, elas tampouco são geridas. E, ao não serem geridas, se acumulam. O resultado é um desgaste contínuo, difícil de mensurar por instrumentos tradicionais, mas profundamente eficaz em produzir adoecimento. Se o Brasil começa, ainda que de forma tardia, a reconhecer que o ambiente de trabalho pode adoecer, como indica a atualização da NR-1, o próximo passo é inevitável: compreender como esse adoecimento se distribui. Não basta admitir a existência do sofrimento. É preciso investigar suas assimetrias.
Ignorar que trabalhadores negros enfrentam pressões adicionais, é tratar como igual um ambiente que é estruturalmente desigual e naturalizar custos invisíveis para sustentar uma normalidade que não lhes é concedida. Nesse contexto, a estética não é periférica, mas parte do próprio risco, exigindo mais de alguns e punindo com maior rigor os mesmos desvios. Se a regulação já reconhece o adoecimento psíquico como questão de trabalho, as organizações precisam ir além do cumprimento formal e admitir que esses riscos têm cor, história e padrão. Caso contrário, a agenda de saúde mental pode apenas reproduzir desigualdades sob uma aparência técnica, mantendo a estética como um filtro silencioso de exclusão.
(*) Mestre em Administração e Governança, ativista e pesquisador especialista em ESG Racial, conselheiro no CIEDS, professor convidado da Fundação Dom Cabral, Co fundador e Gerente Executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial.
Não há crescimento econômico sem saúde mental – Jornal Empresas & Negócios
