Os buracos e as quedas

Benedicto Ismael Camargo Dutra (*)

Depois de décadas sem um planejamento sério, o país está aí no “balança que pode cair”.

No Chile, na cidade de Caiapó, ocorreu em 2010 um grande desmoronamento numa mina que enclausurou 33 mineradores num buraco a mais de 700 metros abaixo do nível do mar, que ficaram sem saída, nas mais precárias condições, com temperatura de 38 graus centigrados. Após 69 dias, eles foram resgatados através de um intenso trabalho de engenharia aplicada à geologia. O acontecimento foi transformado em livro e em filme.

Os mineiros afundaram num buraco profundo. O Brasil também está deslizando para baixo. Depois de décadas sem um planejamento sério na educação, industrialização, preservação, cidades e moradias decentes, o país está aí no “balança que pode cair”. Num mundo que se foi tornando cada vez mais materialista e desconectado da espiritualidade, o Brasil despontava com um futuro promissor, mas acabou hibernando em berço esplêndido.

Os inimigos do país, influenciando os incautos apegados à vaidade, semeavam a discórdia em sua obra destruidora. Num momento muito delicado os militares agiram sob condição especial, impedindo a implantação de um regime socialista na trajetória do país. Havia uma grande preocupação com o futuro, mas também vaidades e tirania, e as classes política e empresarial queriam levar vantagens. Os governantes caíram na armadilha dos empréstimos externos e a dívida ficou por conta dos juros que passaram a 20%.

A economia estourou mesmo, e sob a asfixia das contas externas houve atraso; perdemos a década com o resgate da dívida e inflação, enquanto outros países modernizavam sua indústria. Mas não é adequado ficar discutindo coisas das quais desconhecemos o todo. O Brasil é especial, mas faltaram estadistas. D. Pedro I não estava comprometido com o país. Seu sucessor, D. Pedro II perdeu o trono após a Lei Áurea ter sido promulgada, e a república começou capenga, sem um projeto específico, logo caindo nas mãos de uma oligarquia de fazendeiros que viviam voltados para o mundo externo.

Ficamos deprimidos quando vemos as misérias. Muitas pessoas fogem da política, exatamente porque não veem sinceridade e lealdade nos políticos, em sua maioria atrelada a algum grupo de interesse. Agora enfrentamos a estagnação econômica que avança pelo mundo, e fica mais difícil sair do subdesenvolvimento. O câmbio, que por longo período esteve congelado, enfraquecendo a indústria, teve alta abrupta desorganizando a economia, gerando inflação.

Houve descontrole dos gastos e desvios de verbas destinadas a alcançar melhores condições de vida. A situação do país é grave, não podemos continuar decaindo para o terceiro mundo. Estamos precisando de estadistas sérios e competentes. O problema agora é deter o aumento do desemprego, restabelecer o equilíbrio das contas internas e externas, motivar a população desanimada e melhorar o seu preparo. Chega de aventura socialista.

No Brasil e no mundo os agentes econômicos e os cidadãos precisam de liberdade e ser responsáveis. Precisamos de um governo que consiga negociar a dinamização da atividade econômica. Quando vemos a miséria espalhada, moradias inadequadas nas beiras de rios poluídos que antes davam pescado, pessoas que só tem a água de rios contaminados por dejetos para consumo, percebemos como o país tem sido mal administrado. Há tanta coisa por fazer. Ninguém enxerga o desenrolar da vida.

A prioridade é para obter dinheiro, sugar os recursos naturais enquanto tudo vai se deteriorando socialmente e no meio ambiente. Fiquemos todos nós na torcida para que surja uma geração forte, empenhada na busca do progresso e na melhora da qualidade humana da população.

(*) – Graduado pela FEA/USP, realiza palestras sobre qualidade de vida. Coordena os sites (www.vidaeaprendizado.com.br) e (www.librawww.library.com.br). Autor dos livros: Conversando com o homem sábio; Nola – o manuscrito que abalou o mundo; O segredo de Darwin; 2012…e depois?; Desenvolvimento Humano; e O Homem Sábio e os Jovens (bicdutra@library.com.br).

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