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O futuro pede escuta

em Artigos
quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Luciano Potter (*)

Era 1872 e Júlio Verne publicava “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, a aventura de um homem que aposta poder atravessar o planeta em tempo recorde, confiando mais no cálculo e na atenção aos detalhes do que na própria velocidade.

Avançamos para 2025: hoje conseguimos atravessar continentes em minutos com um clique, mas perdemos o fôlego só de esperar um vídeo carregar cinco segundos. A tecnologia encurtou distâncias, mas esticou o nosso déficit de atenção.

Saímos da Era do Gelo e entramos na “Era da Notificação”, um show de luzes e sons que nos convence de que tudo é urgente. E, nesse espetáculo barulhento e sem arte, a plateia somos nós, só que cada vez menos disposta a ouvir.

Não é papo de “vamos nos abraçar e ouvir o canto dos passarinhos”. É ciência. Harvard, 2018. Conversas presenciais aumentam a atividade do córtex pré-frontal, a área do cérebro responsável por decisões inteligentes e criatividade. Ou seja, ouvir não é perder tempo, é investir no próprio hardware.

Tenho uma palestra chamada “Porque ouvir histórias vai salvar a sua vida” (sim, é sobre escuta e eu passo 50 minutos falando sem parar, a ironia não me escapa). Divido em três blocos: ouvir o mundo (entender o contexto), ouvir o outro (entender o diferente) e ouvir a si mesmo (entender o que diabos queremos). No futuro, essas três coisas vão ser como fita cassete, raras, vintage e disputadas.

E se você não sabe o que é fita cassete, basta saber que quase todo brasileiro já teve um toca-fitas roubado do carro. No passado, ouvir era sobrevivência, saber se aquele mato era comestível ou se o rugido era de leão. Hoje, é sobrevivência digital, distinguir se aquele áudio no WhatsApp é do seu amigo ou de alguém vendendo teoria maluca.

E aí volto para o nosso velho amigo Verne. No livro, Phileas Fogg enfrenta trens atrasados, navios quebrados, perseguições e até um sequestro. Quando finalmente chega em Londres, acha que perdeu a aposta: o relógio marca um dia a menos. Mas viajando sempre para leste, ele ganhou um dia no calendário. Venceu não porque correu mais, mas porque percebeu o que ninguém percebeu.

O futuro vai ser assim. Não vence quem chega mais rápido, mas quem percebe o que os outros ignoram. E, para isso, não existe atalho. É preciso ouvir. Porque, no fim das contas, dar a volta ao mundo só vale a pena se a gente sair de casa com os ouvidos atentos, como o homo sapiens sempre fez para captar tanto os perigos quanto as belezas ao redor.

(*) – É Comunicador