Investimentos em startups: razão x emoção

Alcides Jarreta (*)

O ano passado bateu o recorde de investimento em startups. Ao todo foram quase US$ 9 bilhões até o mês de novembro, contra US$ 3,659 bilhões em 2020.

Atrai cada vez mais os investidores a possibilidade de diversificação de patrimônio com possibilidade de boa rentabilidade e o sonho de acertar um futuro unicórnio (startup com capitalização acima de US$ 1 bilhão). O Brasil conta hoje com 24 unicórnios em operação, sendo que, destes, 7 são fintechs.

É preciso observar, no entanto, que se tornar unicórnio não ocorre da noite para o dia e, tampouco, é um caminho fácil. Requer mais do que uma ideia inovadora, mas sim um plano de negócios coerente, estudos de mercado e empreendedores engajados para rever a rota quando necessário, o que no jargão de mercado, chamamos de pivotagem.

A realidade está bem longe da expectativa, como aconteceu com os milhões de brasileiros que fizeram planos sobre o que fazer com a fortuna após o sorteio da Mega Sena da Virada. Investir em uma startup não deve ser uma aposta, mas resultado de um estudo. O primeiro passo é ter a percepção sobre quem são os gestores.

São apenas jovens que acreditam ter uma ideia única que vai revolucionar o mercado? Tais empreendedores estudaram suficientemente o mercado para entender se seu produto é tão inovador assim? Qual a demanda potencial? É escalável? Será preciso desembolsar caixa, queimando recursos preciosos para conquistar tal demanda? Quanto, por quanto tempo? É sustentável?

São perguntas que, num primeiro olhar, podem parecer muito básicas, por serem um tanto óbvias. Mas isso não é bem assim. Na expectativa de ganhar mais de R$ 300 milhões na loteria, muitos se esquecem que a probabilidade de acertar os números é de 0,000000… alguma coisa. Da mesma forma, diante do sonho de acertar um unicórnio, a obviedade é deixada de lado pela ansiedade.

Tais erros são mais comuns do que imaginamos. Recentemente, analisamos 450 startups que se candidataram à captação de recursos. Deste total, somente 2%, ou 8 empresas, foram aprovadas para lançamentos de projetos na plataforma. Os motivos para o não foram diversos, mas alguns casos chamam mais atenção.

É mais comum do que se imagina o fato de os empreendedores não terem uma estratégia e nem dados concretos, acreditando que o dinheiro está fácil e, por isso, podem captar somente garganteando. A análise demonstrou que 16,6% das startups candidatas não sabiam definir claramente qual seria o futuro do negócio ou sequer contavam com projeções financeiras.

Esta falta de planejamento leva a outro equívoco básico: o produto da startup que se intitula o próximo unicórnio não tem demanda. Mas há ainda outro ponto que deve acender o sinal vermelho na hora de escolher onde deve aportar recursos: a pressa da startup em receber o recurso. A empresa já queimou o caixa, muitas vezes, equivocadamente e precisa de dinheiro para ontem.

Não se tomam boas decisões por impulso. Para 2022, mesmo com os juros mais altos, é esperada uma enxurrada de novos recursos para startups e mais unicórnios devem surgir. Para tirar proveito do movimento e diversificar seu patrimônio, o investidor deve lançar mão de planejamento, estudo e cautela. Equívocos acontecem, mas os riscos podem ser reduzidos quando a razão dá lugar à emoção.

(*) – É sócio-diretor da Efund (www.efund.com.br).

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