Esther Lopes Ricci Adari Camargo (*)
A formação de profissionais de enfermagem no Brasil passa por um momento decisivo. Em meio a avanços tecnológicos, mudanças no perfil epidemiológico da população e transformações nas relações de trabalho, surge uma questão que deveria ser central, mas frequentemente é tratada como acessória: a ética. Dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) mostram que os dilemas éticos se tornaram ainda mais presentes na rotina dos profissionais, exigindo uma atuação que vá muito além da técnica. No entanto, a forma como a ética é tratada na formação acadêmica ainda deixa lacunas preocupantes.
O problema reside, sobretudo, na maneira superficial como muitos cursos abordam a ética. Ela é frequentemente tratada como uma disciplina isolada, desconectada das situações práticas que os enfermeiros enfrentarão no dia a dia. Isso resulta na formação de profissionais tecnicamente qualificados, mas despreparados para lidar com as tensões éticas que permeiam o cuidado, como decisões sobre o fim da vida, equidade no atendimento ou conflitos entre interesses institucionais e o bem-estar do paciente. Sem uma formação robusta nesse eixo, o risco é formar profissionais mecanizados, que executam protocolos, mas não refletem criticamente sobre as implicações humanas de suas ações.
Mais do que nunca, é imprescindível que a ética deixe de ser um tema periférico e se torne transversal em toda a formação acadêmica. Isso significa integrá-la a estudos de caso, simulações de situações reais e discussões interdisciplinares. A simples memorização de códigos de conduta não prepara ninguém para decidir, por exemplo, como agir diante da recusa de tratamento por parte de um paciente ou frente a situações em que há escassez de recursos. A revisão do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, atualmente em debate no Cofen, reflete essa urgência, mas ela precisa ecoar dentro das salas de aula, não apenas nos documentos oficiais.
A negligência na formação ética impacta não apenas a qualidade do atendimento individual, mas também a saúde coletiva. Profissionais despreparados tendem a reproduzir práticas excludentes, pouco empáticas e, muitas vezes, discriminatórias. Em um país onde as desigualdades sociais afetam diretamente o acesso à saúde, a atuação ética do enfermeiro é também um ato de responsabilidade social. Ignorar esse aspecto na formação é fechar os olhos para o papel transformador que a enfermagem pode e deve exercer na sociedade.
A solução passa por uma mudança estrutural no ensino da enfermagem. É preciso que as instituições de ensino tratem a ética não como um item do currículo, mas como um eixo formador, integrado a todas as disciplinas e práticas. Só assim será possível formar profissionais não apenas competentes tecnicamente, mas também conscientes de seu papel social, preparados para enfrentar os dilemas complexos da saúde moderna e comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
(*) Professora e coordenadora do curso de Enfermagem na FASIG.
