Neiva Dourado Martins Mendes (*)
Recentemente assisti a um vídeo sobre a expulsão de Rita Lee dos Mutantes, banda que ela ajudou a criar. Fiquei pensando no que significa ser afastado de algo que também ajudamos a construir e que, de alguma maneira, faz parte da nossa identidade.
Imagino o quanto Rita sofreu com a ruptura, mas sua carreira não terminou ali. Ela se reinventou, ampliou suas possibilidades criativas, construiu uma trajetória que ultrapassou, em muito, aquilo que havia realizado até então, mas não voltou a ser quem era antes. Tornou-se alguém que talvez nem ela própria imaginasse.
Essa história expõe dois conceitos que considero fundamentais para compreender nossa capacidade de transformação: resiliência e antifragilidade. Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, nos deixou uma contribuição fantástica sobre a liberdade humana de encontrar sentido e escolher nossa atitude mesmo diante de circunstâncias que não podemos modificar. Sua obra nos ajuda a compreender a capacidade de atravessar experiências difíceis sem perder a possibilidade de atribuir sentido à vida.
Já Nassim Nicholas Taleb, ao desenvolver o conceito de antifragilidade, amplia essa discussão para outra direção. Enquanto a resiliência está associada à capacidade de suportar adversidades e recuperar o equilíbrio, a antifragilidade descreve o que pode se beneficiar de determinados tipos de instabilidade. É uma separação importante; não nos limitamos à recuperação, mas abrimos para a possibilidade de desenvolver capacidades que antes não existiam.
Penso que, como sociedade, valorizamos muito a capacidade de resistir e ainda exploramos pouco nossa capacidade de reorganização. Temos uma enorme possibilidade de aprender, rever convicções e modificar a maneira como interpretamos o mundo, mas a flexibilidade cognitiva é essencial nesse processo, pois permite reconhecer quando nossas respostas já não são suficientes e precisamos considerar outros caminhos.
No mundo corporativo, isso se torna ainda mais evidente: quantas empresas continuam investindo energia para preservar modelos que já não respondem à realidade? Quantas lideranças confundem persistência com incapacidade de rever decisões? Adaptar-se, como fez Rita Lee, não significa simplesmente reagir às mudanças, mas desenvolver repertório para repensar os modelos, relações e estratégias, inclusive aquelas que um dia foram responsáveis pelo nosso sucesso.
Não acredito que todo “tombo” nos fortaleça, nem que o sofrimento seja uma condição necessária para evoluir. Odeio a frase “o sofrimento faz bem à alma”, a alma de quem eu não sei. Mas acredito piamente na capacidade humana de reconstrução, e talvez seja esse o ponto que mais me interessa: compreender que não estamos limitados àquilo que fomos, ao que construímos ou às circunstâncias que nos trouxeram até aqui, e isso vale para nossas jornadas pessoais, para os negócios e para a sociedade que estamos continuamente construindo.
Resistir pode ser necessário, mas não precisa ser o limite das nossas possibilidades.
(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
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