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O apagão que não é de mão de obra

em A Outra Sala
terça-feira, 28 de abril de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Virou quase consenso apressado dizer que “falta gente para trabalhar”. A explicação costuma vir pronta: benefícios sociais, Bolsa Família, pejotização, uma tal “facilidade” que teria amolecido o esforço. É uma tese simples. E, como toda tese simples demais, perigosa. Porque ignora o básico: os dados não sustentam essa narrativa.

O Bolsa Família atende cerca de 20 milhões de famílias. Em mais de 80% dos casos, são lares chefiados por mulheres, majoritariamente negras, muitas vezes mães solo. A renda per capita frequentemente não chega a R$ 300. O benefício médio gira entre R$ 600 e R$ 700 por família. A pergunta incômoda é direta: em que universo isso substitui trabalho? Se substituísse, teríamos um colapso da atividade informal. Não temos. Temos um país em que a informalidade gira em torno de 40% e milhões combinam benefício, bico e trabalho precário. Ninguém parou de trabalhar. As pessoas estão trabalhando mais, com menos proteção.

Quando olhamos para setores específicos, o retrato fica mais claro.
Na construção civil, por exemplo:

  • mais de 90% da força de trabalho é masculina
  • há alta rotatividade e risco elevado
  • a previsibilidade de renda é baixa
  • a mão de obra está envelhecendo

Traduzindo: os mais jovens não estão entrando. E isso não começou agora. É tendência.

A pergunta correta não é “por que ninguém quer trabalhar?”. É outra: por que determinados trabalhos deixaram de ser desejáveis?

Há uma mudança geracional evidente. Filhos de trabalhadores não querem repetir trajetórias marcadas por desgaste físico intenso, baixa valorização e pouca mobilidade. Isso não é recusa ao trabalho. É recusa a um tipo específico de troca que já não faz sentido.

E então surge uma solução apresentada como avanço: ampliar a entrada de mulheres. É aqui que a análise precisa ficar mais honesta. Mulheres sempre quiseram trabalhar. O que não tiveram foi acesso. Mas também foram historicamente socializadas para aceitar menos, sustentar mais e permanecer mesmo em condições desfavoráveis. Quando passam a ocupar espaços que perderam atratividade, não significa necessariamente que o trabalho melhorou. Pode significar apenas que o perfil de quem aceita mudou.

Sem revisão de condições, cultura e reconhecimento, isso não é inclusão. É redistribuição de desgaste com nova narrativa.

E há ainda a pejotização, esse detalhe que desmonta o argumento com precisão. Enquanto se fala em “apagão”, o próprio mercado substitui vínculos formais por contratos como pessoa jurídica, transferindo risco e custo para o trabalhador. Milhões migraram de CLT para PJ nos últimos anos, enquanto cresceram as ações na Justiça pedindo reconhecimento de vínculo. Ou seja: as pessoas continuam trabalhando, mas sem direitos. Se o problema fosse falta de vontade, não haveria tanta gente aceitando trabalhar mais desprotegida.

Não falta gente.
Falta sustentação de um modelo em que o esforço é alto, a segurança é baixa e o reconhecimento não acompanha.

Quando até quem precisa começa a recusar, não é preguiça.
É ajuste.

E talvez o verdadeiro apagão não seja de mão de obra.
Seja de leitura da realidade.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

E se o céu não for um lugar… e o inferno também não? – Jornal Empresas & Negócios