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Entre a maquiagem e o parto: onde a mudança realmente nasce

em A Outra Sala
terça-feira, 12 de agosto de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Transformação é como gravidez: todo mundo acha lindo no anúncio, mas poucos querem lidar com os enjoos, as noites sem dormir e a dor do parto.
O sistema, no entanto, prefere maquiagem. Um retoque rápido, uma cor nova na parede, um post no LinkedIn com palavras como “inovação”, “regeneração” e “cultura inclusiva”. Tudo sem precisar sujar o chão ou reorganizar os móveis.

Na psicologia humanista, Carl Rogers já dizia que a mudança real só acontece quando existe abertura genuína para a experiência, e essa abertura é rara nas organizações. Porque parir mudança exige coragem para perder o conforto, reconfigurar estruturas e enfrentar o caos temporário.

Veja alguns exemplos:

  • Fala-se em “cuidar da saúde mental”, mas o e-mail às 23h continua sendo normalizado.
  • Lança-se um programa de diversidade sem mexer no perfil de quem toma as decisões.
  • Investe-se em “transformação digital” para automatizar o que já não fazia sentido nem no analógico.

Tudo isso é maquiagem: arruma a foto, mas mantém a mesma estrutura óssea.

Já o parto, a mudança real, acontece nas frestas, onde não há controle de roteiro:

  • É a gestora que reduz reuniões e devolve tempo de vida para o time.
  • O colega que desafia piadas preconceituosas no café.
  • O grupo que cria um projeto que a empresa nem sabia que precisava, mas depois não consegue viver sem.

A teoria dos sistemas adaptativos complexos explica: mudanças profundas nascem nas bordas, não no centro. No centro, há status quo. Nas bordas, há improviso, risco, vulnerabilidade.

O problema é que parto dá trabalho. É dolorido. Nem todo mundo quer atravessar.
Por isso, quem aposta só na maquiagem pode até enganar o espelho, mas não muda o DNA.
Já quem aceita o parto, e toda a bagunça que vem antes do choro, vê nascer algo que não volta mais ao que era.

E talvez seja essa a única transformação que vale a pena.

Por isso, no caminho, muita gente desacelera. Alguns param. E tudo bem, é exaustivo.
Mas há quem continue, mesmo com medo, mesmo com falta de ar, mesmo sem saber se vai dar certo.
E são essas pessoas que, no silêncio das frestas, empurram o mundo um pouco mais para o lado certo.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

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