Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
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Memórias de um repórter aéreo no aniversário da cidade

Memórias de um repórter aéreo no aniversário da cidade

Nessa época do ano em que as pessoas viajam e a cidade aniversaria, o trânsito em São Paulo fica mais tranquilo e a Rádio Eldorado pedia para que me deslocasse com o helicóptero para a cobertura das estradas que levam ao litoral. Ficávamos então sobrevoando o topo da serra, aguardando o momento da chamada para entrar no ar. Neste período de espera, dava tempo para avistar a Mata Atlântica e o contorno dos morros, entrecortados pelas rodovias.

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Ficava então do alto, dando asas à imaginação, pensando como sofreram os nossos antepassados para vencer a muralha verde que separa a Baixada do Planalto, em um tempo onde não havia estradas. Subia-se de cócoras, certamente, se escorando em pedras repletas de lodo. O caminho mais fácil era certamente entre a estrada velha de Santos (SP-148) e a antiga Calçada do Lorena, inaugurada em 1792 pelo intendente Bernardo José de Lorena, o que possibilitou a subida da serra sobre o dorso das mulas ou jumentos. Antes disso, houve uma trilha que só os nativos sabiam, mas que acabaram mostrando ao padre Anchieta, por afeição a ele. Daí o fato desse trajeto ter sido apelidada de “Caminho do Padre José”.

Os jesuítas após vencerem a escarpapuderam avistar, ainda que do chão,aquilo que eu via do helicóptero mais de 400 anos depois, sobrevoando o mesmo topo da serra: o Pico do Jaraguá, avistado em dia claro, quase na linha do horizonte. Tal visualização nos fez imaginar a curiosidade despertada naqueles ancestrais ao verem aquele picojá pensando em descobrir o que haveria nele. No alto do céu foi possível notar o quanto a cidade cresceu, evoluiu.Uma metrópole entre duas serras e desse visual,num repente de sensibilidade poética,nos faz sentir que apesar do tempo, os contornos da cidade permanecem os mesmos.

anchieta serra temproarioDas alturas se visualiza o sítio urbano, entrecortado por rios que terminam por desaguar no Tietê, entre as serras do Mar e da Cantareira. Em outras palavras este é o rossio, ou seja, o terreno espaçoso ocupado pelos habitantes do qual tanto falava AzisAb’Saber, um professor polivalente que sabia tudo sobre São Paulo no que diz respeito à sua geografia, arqueologia, ecologia e que nos deixou em 2012. Os voos de helicóptero durante tantos anos me imbuíram deste sentimento de visualizar e de certo modo compreender o surgimento e a transformação de um lugar.

A imaginação fértil nos ajudou a pensar como se deu o restante do processo da escolha do terreno para a fundação do Colégio de São Paulo dos Campos de Piratininga. Hernâni Donato, que foi presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo dizia que a escolha não foi aleatória, o terreno foi previamente estudado e escolhido pelas técnicas da época que avaliavam o caminho das águas das chuvas, a firmeza do terreno e outros aspectos da natureza. Uma colina entre dois rios, Anhangabaú e Tamanduateí, facilitava não só os deslocamentos por barco, mas a obtenção de peixe e outros alimentos, além de dificultar o ataque inimigo.

A Borda do Campo
Ainda pelo Topo da Serra, no helicóptero, tentei localizar algum sinal que mostrasse onde teria existido a antigo Santo André da Borda do Campo de João Ramalho que teria existindo ainda antes de São Paulo.Afinal, o nome já diz, borda do campo. Mas da antiga tribo chefiada pelo morubixaba Tibiriçá e transformada em vila por concessão dele, nada restou. Convencidos depois pelo simpático João Ramalho, todos se transferiram para a nova vila que se formaria nos campos de Piratininga. O acadêmico paulista de Letras e História, Antônio Penteado Mendonça, costuma comentar em suas crônicas que João Ramalho era tão fascinante que, “além de convencer Tibiriçá a se mudar com a tribo, ainda ganhou de presente a sua maior riqueza, a filha Bartira”.

Fica por conta da imaginação de cada um de nós, os caminhos percorridos por Ramalho e a tribo do cacique até Piratininga onde se inaugurou o colégio de padres, a 25 de janeiro de 1554,dia da conversão do apóstolo Paulo, dando início à saga que levaria os bandeirantes que viriam pouco depois, a expandir o Brasil em trilhas que terminaram muito além dos limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas.

foto-aerea-rodovia-imigrantes temproarioDali em diante quase tudo mudou, até mesmo a atual igreja do Pátio do Colégio é apenas uma réplica da que existia. Daquela data de fundação até hoje o que ficou foram os limites naturais estabelecidos pela Mata Atlântica, ainda preservada em parte graças as dificuldades de acesso que ainda existem para a Serra do Mar e Serra da Cantareira. Claro que surgiram Cubatão, a Cosipa, a poluição, os bairros cota, a rodovia Anchieta e as duas pistas da Imigrantes. Também para a Cantareira onde seguimos neste sobrevoo pelas estradas visualiza-se mazelas. A mata segue ameaçada, como explicam os ambientalistas, um dos problemas é a implantação do trecho norte do Rodoanel.

Mas a Cantareira ainda é considerada a maior Floresta Urbana Natural do Mundo, alguns dizem ser possível aindase tomar banho de cachoeira, mas que para não se perder no meio do mato, é preciso seguir a orientação de monitores que conhecem a região. Avistando de cima, a Rua Dr. Zuquim, em Santana, ainda fica a impressão de ser ali, o início da subida que fez o bandeirante Fernão Dias na abertura dos caminhos que o levariam às Minas Gerais, tanto que até uma avenida leva o nome de Nova Cantareira, e Cantareira por quê? Por causa das águas, pois no lugar chovia a cântaros, entendem-se. Dessa constatação se fez um sistema de água para abastecer a cidade de São Paulo. Mesmo a estrada que leva o nome do bandeirante caçador de esmeraldas é interessante de sobrevoar por causa de seu trajeto sinuoso. Há um túnel na Fernão Dias, cujo nome serve para explicar as características do lugar, “Túnel da Mata Fria”. Este ponto é uma espécie de divisa entre a metrópole e o interior. A visão aérea também é outra. Exceto ao tráfego rodoviário o restante do visual é ameno. Estamos no caso, do lado de lá da Cantareira. Nesses tempos de sobrevoo, vez por outra, os pilotos que me acompanhavam eram surpreendidos por aeronaves clandestinas, aviões “teco-teco” sem prefixo, às vezes voando mais baixo que nós. Acreditamos, entretanto, que com o aumento de aeronaves e o consequente aumento de fiscalização, esse tipo de situação já tenha acabado.

Ainda nos meus tempos de repórter aéreo, que se estenderam até 2010, após sobrevoar Santana notava-se que aos poucos a paisagem ia se modificando com o verde começando a predominar. Avista-se belas casas, chácaras e sítios. Neste momento já estamos pelos lados de Mairiporã onde do Alto da Cantareira se avistaos prédios da metrópole que nós conhecemos. Parte dessa visão pode ser observada por quem subir de carro ou mesmo a pé à Pedra Grande, em Atibaia.

Mas o ponto culminante da Grande São Paulo, é mesmo o Pico do Jaraguá onde há uma sinuosa via acesso de acesso e um mirante mau cuidado que poderia receber mais atenção.Ficaram as torres de TV, embora as transmissões tenham se transferido para a região da Avenida Paulista. Dizem as torres permanecem para serem usadas se as atuais apresentarem problemas. Tive um ouvinte que me ligava insistentemente pedindo para que eu lançasse uma campanha para que o topo do Pico do Jaraguá ostentasse um marco representativo para São Paulo, como é o Cristo Redentor para o Rio de Janeiro.

O Pico do Jaraguá tem 1135 metros de altitude e nem dá para se aproximar muito dele por causa do vento e dos aviões de carreira já na fase final de aproximação ao Aeroporto de Congonhas. Perto dele estão a Via Anhanguera e a Rodovia dos Bandeirantes, além do Rodoanel Mário Covas. Quando os pilotos aprumam o helicóptero sobre a Rodovia dos Bandeirantes, no sentido interior, a bússola instalada a bordo indica o sentido Norte, o mesmo seguido por aqueles que logo depois da fundação de São Paulo, em 1554, rumaram sertão adentro para de fato, descobrirem o Brasil.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

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