Os matadouros e a indústria automobilística

As linhas de montagem foram concebidas por Henry Ford. Elas permitiram a produção em massa de automóveis, a baixo custo, e logo foram copiadas por outras indústrias, tanto de bens como de serviços. A difusão do conceito de linha de montagem moldou a sociedade atual em termos, principalmente, de produção e consumo.

Vivaldo José Breternitz (*)

Mas as linhas de montagem têm uma história interessante: nasceram da visita que Ford fez a um matadouro de Chicago, conforme o próprio Ford relata em sua autobiografia “My Life and Work”, de 1922.

Gustavus Swift e Philip Armour haviam criado um sistema de abate e “desmontagem” de bovinos que permitia que isso fosse feito em escala industrial. Nos frigoríficos, os animais passaram a ser suspensos de cabeça para baixo por uma corrente que corria por um trilho elevado, passando de um funcionário a outro, que trabalhavam em postos fixos.

Cada funcionário executava uma tarefa específica no desmembramento da carcaça: atordoamento do animal, sangramento, corte da cabeça, retirada do couro, corte da carne, remoção das vísceras, lavagem etc. Swift e Armour tornaram-se grandes empresários do setor de carnes.

Ford percebeu a eficiência deste processo e inverteu-o: a plataforma sobre a qual seria montado um carro seria transportada por uma esteira rolante e os operários, que ficariam praticamente parados, iriam integrando peças à plataforma. Buscava-se assim a eliminação do movimento inútil: o objeto de trabalho era entregue ao operário, ao invés dele ir buscá-lo. Cada operário realizava apenas uma operação simples ou uma pequena etapa da produção, podendo ser muito pouco qualificados.
O método de produção fordista exigia vultosos investimentos em máquinas e instalações, mas permitiu que a Ford produzisse mais de dois milhões de carros por ano, durante a década de 1920 – o primeiro veículo produzido dessa forma foi o Ford Modelo T, mais conhecido por aqui como “Ford Bigode”. A título de comparação, em 2020 toda a indústria automobilística brasileira produziu praticamente dois milhões de veículos.

A história mostra que atenção e capacidade de observação são atributos importantes e devem ser cultivados.

(*) É Doutor em Ciências pela Universidade de S. Paulo e professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie ([email protected]).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap