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KPMG publica relatório com alucinações produzidas por inteligência artificial

em Tecnologia
quinta-feira, 18 de junho de 2026

A KPMG é uma das chamadas “Big Four” das áreas de consultoria e auditoria, ao lado de Deloitte, PwC e Ernst & Young.

Vivaldo José Breternitz (*)

Durante o ano fiscal que foi de outubro de 2024 a setembro de 2025, sua operação no Brasil faturou cerca R$ 2 bilhões, registrando um crescimento de 11,1% em relação ao ano fiscal anterior.

Recentemente veio à tona um fato que parece desmentir as afirmações da empresa no sentido de que tem expandido o uso ético de inteligência artificial. Em outubro de 2025, a KPMG publicou um relatório intitulado “Total Experience: Redefining Excellence in the Age of Agentic AI”, mostrando como empresas estariam usando inteligência artificial para atender às necessidades dos clientes.

A KPMG usou inteligência artificial para produzir o relatório, que acabou sendo publicado com muitas falsidades ou incorreções, chamadas “alucinações de IA”. Dentre essas, menções a sistemas inexistentes ou que não tinham as capacidades descritas no documento.

O jornal britânico Financial Times relatou que pesquisadores, usando o software GPTZero, utilizado para verificar se um texto foi escrito por humanos ou por uma IA, concluíram que apenas cinco das 45 citações constantes do relatório correspondiam a fatos. Outras 28 eram paráfrases distorcidas ou continham elementos falsos, e 12 eram tão vagas que não foi possível confirmar sua existência. Os resultados configuram o que é chamado “vibe citing”, situações em que modelos de IA criam referências falsas para dar credibilidade às suas respostas.

Além das citações incorretas, boa parte das afirmações constantes do relatório também eram falsas ou atribuídas de forma equivocada. Em um exemplo, a KPMG dizia que a Emirates havia lançado um chatbot chamado Sara capaz de conversar com passageiros e remarcar voos, quando na realidade, Sara era apenas um assistente móvel lançado em 2023, sem funções de remarcação de passagens.

Outro caso envolvia o banco suíço UBS, que estaria usando agentes de IA em consultoria de investimentos e monitoramento de compliance, fato que o banco negou categoricamente. A KPMG também afirmou que os roteiros de viagem dos passageiros da ferrovia suíça SBB eram otimizados por agentes de IA, informação igualmente desmentida pela empresa.

Relatórios de grandes consultorias como a KPMG costumam ser citados em pesquisas acadêmicas e artigos, por serem considerados fontes altamente confiáveis. Quando erros desse porte acontecem, prejudicam a qualidade dos trabalhos que os utilizem como referência.

Um porta-voz da KPMG declarou ao Financial Times que a empresa “leva a sério a precisão e a integridade dos conteúdos que publica, tendo retirado o relatório do ar e afirmado estar “revisando as circunstâncias que levaram à sua publicação”.

Se isso acontece com uma empresa do porte da KPMG, podemos imaginar a qualidade do que vem circulando pela internet produzido por outras organizações com estrutura menor e pessoas não qualificadas…

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].

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