
Vivaldo José Breternitz (*)
Bill Gates acaba de tornar público o documento “The turbulent AI era is here. The choices we make are critical”, cujo título pode ser traduzido como “A era turbulenta da IA chegou. As escolhas que fazemos são críticas”.
Nele, o bilionário cofundador da Microsoft propõe reservar determinadas funções aos seres humanos, comparando essa medida à criação de reservas ambientais.
Ao fazer essa proposta, Gates soa quase como um ambientalista digital, mas há uma ironia difícil de ignorar: o próprio empresário foi um dos arquitetos da revolução tecnológica que acelerou a automação e abriu caminho para a era da IA.
Quando afirma que “muitos empregos vão desaparecer para sempre”, não está apenas prevendo o futuro, está descrevendo um processo que sua própria trajetória ajudou a desencadear. Sua Microsoft foi uma das empresas que mais impulsionaram a digitalização do trabalho, substituindo pessoas por softwares. Agora, ao falar em limites éticos para a IA, Gates parece tentar colocar freios em uma máquina que já está em movimento há décadas.
Outro problema, é que sua proposta soa mais como um apelo do que como uma política concreta. Quem decidirá quais funções devem ser preservadas? E, mais importante, quem convencerá empresas e governos a abrir mão da eficiência tecnológica em nome da humanidade? A lógica do mercado raramente se curva à lógica da ética.
Gates está certo em alertar que governos não estão preparados para o impacto da IA. Mas há um paradoxo: ele pede que instituições criem uma arquitetura global para controlar a tecnologia, quando foi justamente a ausência de limites que permitiu que gigantes como a Microsoft se tornassem tão poderosos.
Em última análise, parece que o discurso de Gates revela menos preocupação genuína com empregos e mais com a forma como a história lembrará seu papel. Ele não quer ser visto apenas como o bilionário que ajudou a criar o problema, mas como o visionário que tentou salvar a humanidade dele; nessa linha, anunciou pretender encontrar-se com o líder chinês Xi Jinping, para, como disse à Reuters, “propor esforços globais no sentido mitigar os riscos crescentes trazidos pela IA”
Quanto a nós, simples mortais, seguimos querendo acreditar que haverá espaços intocados pela IA, mas a história mostra que, quando a tecnologia promete aumento nos lucros, dificilmente alguém resiste a ela.
(*) Vivaldo José Breternitz, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].

