Aumenta a vigilância sobre os trabalhadores

Vivaldo José Breternitz (*)

A empresa de tecnologia Canon adotou uma maneira muito estranha de lidar com o problema do ambiente de trabalho: instalou câmeras com tecnologia de “reconhecimento de sorriso” habilitada por Inteligência Artificial (IA), nos escritórios de sua subsidiária chinesa.

As câmeras permitem que apenas funcionários sorridentes entrem nos escritórios ou agendem reuniões, esperando assim que a felicidade de cada um contribua para melhorar o clima. Essa história deprimente foi trazida pelo jornal The Financial Times, mostrando como empresas chinesas vigiam seus funcionários com a ajuda de IA e algoritmos.

As empresas monitoram quais aplicativos os funcionários usam em seus computadores para avaliar sua produtividade, utilizam circuitos internos de TV para medir quanto tempo demoram para almoçar e até mesmo rastreiam seus movimentos fora do escritório, usando aplicativos móveis. Nick Srnicek, professor de economia digital do King’s College, de Londres, disse ao Financial Times que os trabalhadores não estão sendo substituídos por algoritmos e IA, mas sim tem seu ritmo de trabalho aumentado pelo uso de tecnologia, revivendo os piores aspectos da Revolução Industrial no século XVIII.

A Canon anunciou suas câmeras de “reconhecimento de sorriso” no ano passado, como parte de um conjunto de ferramentas de gerenciamento de local de trabalho, mas o anúncio não recebeu muita atenção, talvez pelo fato de que ferramentas de vigilância estejam se tornando comuns, não apenas na China.

Embora o público dos países ocidentais às vezes tenda a considerar medidas como a da Canon como naturais em culturas como a chinesa, coisas similares estão acontecendo em países de nosso hemisfério: a Amazon é talvez o principal exemplo dessa postura, sendo conhecida por exigir esforços cada vez maiores de seus motoristas e funcionários dos centros de distribuição, às custas de sua saúde e até mesmo usando algoritmos para definir quais serão demitidos em função de produtividade insatisfatória.

Esse taylorismo radical moderno também não se restringe a empregados de nível operacional: aplicativos como o Microsoft 365 têm ferramentas de vigilância integradas. E com mais pessoas trabalhando em casa por causa da pandemia, mais empresas estão implantando esses recursos por medo de perder o controle sobre seus funcionários.

Ou, com um pouco mais de cinismo, como disse James Vincent, do portal The Verge: talvez muitas empresas sempre tenham querido usar essas ferramentas e a pandemia forneceu um bom pretexto para isso. É possível que aplicações como a implantada pela Canon não sejam muito perigosas, por sua obviedade. As coisas podem se agravar quando outros sistemas de controle, muito mais sutis, chegarem até nós, o que pode ocorrer muito em breve.

(*) – Doutor em Ciências pela USP, é professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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