Francisca Mainardi (*)
O mercado de trabalho atravessa uma transformação estrutural. A incorporação acelerada de tecnologia e inteligência artificial não afeta apenas processos ou ferramentas, mas redefine a forma como empresas tomam decisões de pessoas e como carreiras passam a ser construídas.
Esse cenário gera insegurança porque rompe com modelos que, até pouco tempo, eram relativamente estáveis. Funções mudam mais rápido do que ciclos tradicionais de formação profissional, e a velocidade da transformação passou a ser um fator de risco econômico e social.
De acordo com o Future of Jobs Report 2023, do World Economic Forum, cerca de 44% das competências exigidas no mercado global devem mudar até 2027. O mesmo relatório aponta que 60% dos trabalhadores precisarão de algum tipo de requalificação nos próximos anos para manterem sua empregabilidade.
Esses números ajudam a dimensionar o impacto da tecnologia para além do ambiente corporativo. Não se trata apenas de produtividade ou eficiência, mas de acesso ao trabalho, renda e mobilidade social em larga escala.
Nesse contexto, decisões de pessoas passam a ter um peso diferente dentro das organizações. Contratação, promoção e sucessão deixam de ser análises baseadas majoritariamente em histórico profissional e passam a incorporar critérios como capacidade de adaptação, aprendizado contínuo, leitura de dados e maturidade para operar em ambientes mais automatizados.
O McKinsey Global Institute, no relatório Jobs Lost, Jobs Gained: Workforce Transitions in a Time of Automation (2017) e em atualizações posteriores sobre produtividade e IA publicadas até 2023, projeta que uma parcela relevante da força de trabalho global precisará mudar de ocupação ou adquirir novas habilidades ao longo desta década. Segundo a consultoria, os ganhos econômicos associados à tecnologia só se sustentam quando combinados a decisões eficazes sobre talentos e liderança.
Esse movimento redefine também o perfil das lideranças. A escolha de líderes passa a considerar, de forma mais explícita, a capacidade de tomar decisões em contextos de incerteza, integrar tecnologia ao negócio e conduzir times em transformação contínua. Liderança deixa de ser apenas execução e passa a ser, cada vez mais, julgamento e responsabilidade.
Dados do LinkedIn Future of Work Report 2024, divulgado pela LinkedIn, reforçam essa leitura ao mostrar que habilidades como adaptabilidade, pensamento crítico, alfabetização digital e aprendizado contínuo estão entre as que mais crescem globalmente, inclusive em posições não técnicas. O relatório indica ainda que o ritmo de mudança nas competências exigidas tem acelerado ano após ano.
O impacto dessas transformações não se limita às empresas. Ele afeta expectativas de carreira, relações de trabalho e o próprio contrato social em torno do emprego. Transições mal conduzidas ampliam desigualdades, geram exclusão e pressionam sistemas públicos já fragilizados.
Estamos, portanto, diante de uma década de transição. Nesse cenário, tecnologia deixa de ser apenas um tema de inovação e passa a ser um elemento central na forma como decisões de pessoas são tomadas.
A discussão não é se a tecnologia vai transformar o trabalho. Isso já está acontecendo. A questão central é se empresas, lideranças e áreas de pessoas estão preparadas para tomar decisões mais conscientes em um contexto que impacta não apenas resultados organizacionais, mas a sociedade como um todo.
(*) Sócia e cofundadora da Elara Partners.


