As mentiras que os chefes contam – e como lidar

Renato Martinelli (*)

Você já mentiu no trabalho? Provavelmente a sua resposta seja SIM, inclusive porque estudos da Universidade de Massachusetts (EUA) afirmam que uma pessoa conta, em média, uma mentira a cada 10 minutos. Entretanto, como faltar com a verdade não é correto, a desonestidade não é bem aceita em nossa sociedade e pega mal para a imagem profissional (e pessoal), sua resposta oficial para minha pergunta seria NÃO, concorda? 

Só que o seu chefe já mentiu, várias vezes, e isso pode interferir muito na sua relação com o trabalho e com a liderança direta. Afeta o relacionamento profissional, balança o vínculo de confiança, você fica com receio de dar sua opinião e manifestar suas ideias, além de limitar sua atuação pois, na dúvida, você não vai “sair da linha e se arriscar, com medo de perder o emprego. Mas as mentiras estão lá, nas falas, nas mensagens, nos e-mails, nas fofocas de corredor. Quais são as mentiras mais frequentes, porque elas estão tão presentes nas relações e como lidar com as mentiras no trabalho?

7 a cada 10 profissionais não confia no seu líder direto (Gallup, 2020)

As mentiras que os chefem contam

O nível de transparência das organizações aumentou, especialmente por iniciativas como a lei americana Sarbannes-Oxley, Ouvidorias e comitês e processos de Compliance. Contudo, essas ações foram pensadas na relação das organizações com seus stakeholders, com destaque para investidores, e apesar de possuem até sua efetividade quando se trata de ética e governança dentro das empresas, não impede que gestores e gestoras mintam para seus liderados, pares e líderes. Por isso, vou listar as 12 mentiras que entendo serem as mais usadas por chefes – dos mais novos aos mais experientes:

  • “Seu trabalho está ótimo”: diz que está bom, elogia, mas não quer criticar para evitar conflito. E depois vai lá e faz no lugar da pessoa ou pede para outra pessoa da equipe fazer ou terminar a tarefa
  • “Estava em outra reunião”: em tempos de trabalho remoto/híbrido, onde muitas reuniões viraram calls, uma agendada após a outra, os atrasos podem ser comuns (ou não). Mas usar essa mentira, disfarçada de desculpa, parece não interferir tanto na relação. 
  • “Aqui, avaliamos pela meritocracia”: fala que avalia o desempenho pelo mérito, pelas entregas, mas privilegia os liderados com quem tem melhor relacionamento pessoal e afinidades.
  • “Estou gostando do seu trabalho”: pode ser um elogio sincero, mas pode ser aquela mentira só pra estimular a melhoria de performance no trabalho, “dar aquela motivada”.
  • “Não posso te promover porque o RH não deixa”: coloca a responsabilidade na área de Recursos Humanos por promoções e reconhecimentos financeiros só para se eximir de responsabilidade da liderança, que é quem toma essa decisão.
  • “Estou terminando o e-mail aqui e já te passo”: nem começou a mensagem, mas já vai anunciando que vai vir mais trabalho – e a pessoa que se prepare porque lá vem coisa pra fazer.
  • “Muito bom, só falta um detalhezinho pra tirar nota 10”: aqui leia-se “não gostei de tudo, você não fez do jeito que eu queria ou te pedi, então vou consertar e deixar da forma como eu faria.”
  • “Não recebi o e-mail”: na verdade, estava sim na lista de pessoas que recebeu o e-mail, mas não abriu, ou não leu, ou abriu e leu, mas não fez nada a respeito. 
  • “Fui chamado pela Diretoria, não vou conseguir almoçar com você hoje”: que pode ser entendido como “não quero almoçar com você, então inventei uma desculpa para me livrar desse compromisso”.
  • “Fui eu que fiz”: o chefe querendo assumir a responsabilidade do trabalho, quando na verdade foi a equipe ou alguém do time que desenvolveu o trabalho.
  • “Preciso disso o mais rápido possível, no máximo até o final do dia”: o chefe aperta muito o prazo, mas não é um prazo real. Pode ser que o gestor queira um tempo maior para analisar o trabalho antes de tomar uma decisão ou usar a informação, mas também pode ser um teste, baseado em desconfiança.
  • “Você será o próximo a ser promovido”: faz falsas promessas, só para amenizar o clima e a relação, especialmente quando outra pessoa é promovida e não aquela que esperava ansiosamente pela sua promoção.

Por que as pessoas mentem?

Parece existir uma certa aceitação sobre a mentira no convívio social. Existem diferentes motivos que sua usados para mentir: 

  • para obter vantagens e benefícios para si próprio ou para um grupo de pessoas (proteger a si, ou família, equipe de trabalho, colega da área)
  • para ter uma visão positiva sobre si (os casos de inverdades no currículo, com cursos e formações que não existem ou não foram feitos)
  • para se sentir valorizado (premiações e reconhecimentos que não ocorreram mas servem para inflar o ego)
  • para evitar algum conflito (mentira ou omissão para não dar briga ou desapontar alguém)
  • para ser aceito no grupo (cita semelhanças que não existem para gerar proximidade). 

Afinal, se você reconheceu alguns motivos acima que já te levaram a mentir, é possível que você encontre justificativas para ter sido desonesto (quando fala assim, parece “pesado”, né?). Segundo o autor do livro A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade, Dan Ariely afirma que a maioria das pessoas está mais propensa a falar mentiras porque, apesar de querer parecer ser uma pessoa honesta, muitos gostam de usufruir de pequenas vantagens que as mentiras proporcionam: profissionais com grandes qualidades, sem defeitos (a não ser o “perfeccionismo”). 

Existem algumas características de pessoas mentirosas: 

  1. são manipuladoras: usam dados verdadeiros e falsos para enganar e fazer pessoas acreditarem no seu argumento
  2. são ótimos atores: fazem aquela cena para mostrar que estão felizes, tristes, preocupados, interessados…e escondem as emoções verdadeiras com facilidade
  3. conseguem se expressar bem: articulam bem as palavras, tem uma linha de raciocínio clara, conseguem ser envolventes e convincentes
  4. acreditam muito na mentira: por mais que você saiba ou desconfie que é uma mentira, a pessoa fala com tanta conviccção que você fica na dúvida

A questão pode ser até patológica, chamada de mitomania, quando pessoas passam a ser mentirosos compulsivos, que falam desde pequenas mentirinhas que parecem inofensivas até grandes fábulas ou histórias de superação irreais. Aqui, o caso é mais grave e merece um diagnóstico clínico e um tratamento médico.

O que fazer com um chefe mentiroso?

Trabalhar com base na desconfiança é como se você tivesse uma arma apontando em sua direção. Você redobra a cautela, fica com medo de falar o que pensa e fazer do seu jeito, não se sente seguro de desempenhar o seu papel, temendo críticas e inverdades que farão você cair em uma cilada. Enquanto o chefe se protege, coloca os outros em risco. 

Como agir com um chefe mentiroso vai depender do teor da mentira, das consequências para as pessoas envolvidas e para a empresa. Se entender que a mentira está prejudicando você, colegas ao redor, outras áreas ou até a companhia como um todo, procure a Ouvidoria, Comitê de Ética ou o RH. Entenda como as denúncias são feitas e procure o canal indicado. Casos mais críticos podem gerar advertência, punição e até desligamento por justa causa do chefe mentiroso. 

Se forem aquelas mentiras “inofensivas”, avalie como fica sua relação com a pessoa e com o seu próprio trabalho. Perceba se o chefe não passa a intensificar a cobrança de resultados, aumenta a pressão por qualidade, ou seja, “pega no seu pé” mais do que com seus colegas de trabalho. Talvez a permanência fique insustentável.

Procure desenvolver relações de confiança e honestidade, seja com seu líder, seus pares e demais colegas. Sem confiança, não há relacionamento verdadeiro. E no teatro corporativo, o bobo da corte pode ser você. Por mais desafiadora que seja a conversa, prefira a verdade.

(*) É membro dos Empreendedores Compulsivos, Trainer de Comunicação, Propósito e Performance, e tem como foco ajudar pessoas a desenvolverem competências de comunicação para potencializar engajamento e resultados com equipes e clientes.  Possui mais de 20 anos de carreira, agrega experiências e conhecimentos em empresas nos setores de Agronegócio, Automobilístico, Alimentos e Bebidas, Comércio, Construção, Farmacêutico e Químico, Financeiro e Seguros, Papel e Celulose, TI e Telecom, Varejo. É especialista em temas relacionados à Comunicação, Liderança, Gestão de Equipes de Alto Desempenho e Gestão de Conflitos, Vendas, Negociação e Articulação de Soluções.

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