123 views 10 mins

O papel da inteligência artificial e o impacto da tecnologia no SUS

em Opinião
segunda-feira, 03 de agosto de 2026

Simone Vicente (*)

A saúde é um direito de todos e o Sistema Único de Saúde (SUS) é a maior prova disso.

Reconhecido como uma das redes públicas mais amplas e complexas do mundo, o SUS atende cerca de 131,2 milhões de brasileiros e oferece atenção primária a aproximadamente 60% da população. Para que uma estrutura dessa dimensão se mantenha atualizada e eficiente, são necessárias políticas e iniciativas que garantam experiências de cuidado mais qualificadas. Nesse contexto, a tecnologia tem se consolidado como grande aliada, especialmente com a adoção de soluções digitais e inteligência artificial (IA).
Nos últimos anos, o SUS tem dado passos decisivos rumo à transformação digital, aproximando-se das diretrizes mais avançadas da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD). O movimento coloca o Brasil em posição de destaque no cenário global.
O ponto central dessa revolução é a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), a plataforma oficial do Ministério da Saúde que conecta de forma segura e padronizada informações de pacientes, unidades e profissionais em todo o país. Baseada em um protocolo internacional, a RNDS garante interoperabilidade entre sistemas municipais, estaduais e federais.  Segundo o Ministério da Saúde, a dimensão dessa infraestrutura vem crescendo de forma acelerada, a RNDS passou de 2,8 bilhões de registros em julho de 2025 para 4,6 bilhões em maio de 2026, reforçando seu papel como base nacional para integração e uso estratégico de dados em saúde.
O tema também ganhou força no Congresso Nacional, com o parecer mais recente da PL nº 5.875/2013 que propõe a instituição da RNDS, do CadSUS e da Plataforma de Conexão do SUS em lei, com o objetivo de promover a interoperabilidade de dados em saúde em todo o território nacional. A proposta reforça que a integração entre sistemas deixou de ser apenas uma agenda tecnológica e passou a ocupar espaço estratégico na formulação de políticas públicas para o setor.
A modernização da RNDS impulsiona esta revolução digital garantindo a continuidade assistencial e a integração de dados para que os históricos clínicos e prontuários dos pacientes circulem de forma integrada. Outro avanço importante foi a Portaria GM/MS nº 6.656/2025, que tornou obrigatório o envio periódico dos dados de Regulação do Acesso à RNDS, por meio do Modelo de Informação da Regulação Assistencial (MIRA).
Esta interoperabilidade e a digitalização possibilitam um acompanhamento histórico da saúde do paciente. Além disso, ao permitir que exames, prontuários e históricos clínicos circulem de forma integrada, a RNDS reduz a necessidade de repetição de exames já realizados e contribui para a redução de gastos associados a processos desnecessários e ao uso de papel.
A infraestrutura já é realidade no Brasil e representa uma das iniciativas mais ambiciosas do mundo em termos de integração nacional de dados de saúde. O Meu SUS Digital, cada vez mais fortalecido como hub central de informações para usuários e profissionais, é um exemplo de como o país tem conhecimento e capacidade tecnológica para garantir acesso qualificado a dados clínicos, apoiar a telemedicina e estimular políticas públicas baseadas em evidências. Além disso, a chegada do 5G, que já cobre mais de 63% do território nacional, impulsiona essa transformação ao viabilizar conexões mais rápidas e estáveis, fundamentais para serviços digitais em saúde em tempo real.
Em 2026, o governo também anunciou a expansão da conectividade para até 3,8 mil Unidades Básicas de Saúde, iniciativa que deve fortalecer o uso do prontuário eletrônico, da Telessaúde, de teleconsultas, do telediagnóstico e da integração clínica via RNDS.
Na ponta do cuidado, a transformação também chega por meio do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), já implantado em todos os municípios brasileiros, demonstrando que ao digitalizar os atendimentos da Atenção Primária, o Brasil melhora a continuidade assistencial e garante dados estruturados para planejar políticas públicas. Ademais, orientações técnicas recentes do Ministério da Saúde passaram a tratar do cadastro de recém-nascidos nos sistemas indicados para permitir o registro dos primeiros imunizantes e o envio dessas informações à RNDS, reforçando a importância da integração desde os primeiros momentos da vida.
Mas, para garantir que a tecnologia avance cada vez mais no Brasil, as organizações de saúde contribuem ativamente com o SUS. Como por exemplo a Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem – FIDI, maior empresa de diagnóstico por imagem do Brasil, que investe em projetos no desenvolvimento de soluções em IA direcionadas para o setor público. Entre essas inovações, destaca-se o uso de uma ferramenta que permite à IA identificar até 75 tipos de alterações em exames de radiografia de tórax em menos de 5 minutos.
Outro exemplo de inovação que já mostra resultados concretos na rede pública é a automação do atendimento por meio de totens digitais, que reduziu de forma significativa o tempo de abertura de fichas, de uma média de sete minutos para apenas três minutos. Implantada pela FIDI, a solução vai além da agilidade inicial: o tempo médio de espera do paciente para ser atendido por um profissional caiu de até 40 minutos para cerca de 15 a 20 minutos. Essa transformação é possível graças a um sistema inteligente que organiza as filas de acordo com prioridade e modalidade de exame, garantindo eficiência no fluxo e melhorando a experiência de quem utiliza o SUS.

Como avançar e quais os próximos passos
A OMS aprovou a extensão de sua Estratégia Global de Saúde Digital até 2027, e prepara o plano 2028-2033, reforçando que plataformas nacionais, interoperabilidade e serviços digitais inclusivos são prioridades mundiais. O SUS já cumpre parte dessas recomendações, demonstrando capacidade de alinhar-se às tendências globais com soluções de grande escala.
Mas, apesar dos avanços, ainda existem desafios como a adoção desigual entre regiões, a necessidade de ampliar o uso secundário de dados para pesquisa e gestão de mais políticas éticas e regulatórias para o uso da inteligência artificial em saúde. Esses pontos também aparecem na agenda internacional e serão cruciais para a próxima fase da transformação digital brasileira.
A digitalização do SUS representa não apenas inovação tecnológica, mas uma mudança estrutural na forma como o Brasil garante acesso universal à saúde. Ao integrar dados, serviços e cidadãos em uma mesma rede, o país mostra que é possível combinar escala, equidade e inovação, valores que fazem do SUS uma referência não só em saúde pública, mas também em saúde digital no mundo.

(*) CEO da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI).