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Caso do Louvre: o alerta global sobre segurança que vai além das senhas

em Opinião
sexta-feira, 07 de novembro de 2025

Mirella Kurata (*)

Ao ser alvo de um assalto milionário em outubro de 2025, no qual ladrões levaram joias da coroa francesa avaliadas em cerca de 100 milhões de dólares, o Louvre levantou novos debates sobre segurança digital, principalmente tratando-se de escolhas de senhas.

O Museu mais visitado do mundo, com orçamento milionário e status de patrimônio cultural global, teve divulgado que o seu sistema de videovigilância utilizava “Louvre” como senha, expondo falhas graves de segurança digital e infraestrutura obsoleta, o que reforça que não há tecnologia capaz de proteger uma organização que não enxerga a segurança como parte da sua estratégia e cultura.

A tentação de delegar à tecnologia toda a responsabilidade pela cibersegurança é um erro comum. No entanto, o caso do Louvre mostra o contrário ao contrapor a proteção mais avançada do mundo com uma senha previsível e uma equipe sem treinamento contínuo sobre boas práticas. Entre piadas e incredulidade, esse episódio rendeu questionamentos dos internautas sobre os padrões de senhas complexas adotados por muitos sites e aplicativos, já que nem o Louvre faz isso. 

No entanto, a resposta é simples: a negligência digital independe de tamanho, prestígio ou poder econômico, no dia a dia, o impacto de uma senha fraca pode ser a perda de dados pessoais, de uma conta bancária ou até da própria identidade digital. A cibersegurança é, antes de tudo, comportamental e depende da conscientização, disciplina e responsabilidade compartilhada. Criar uma cultura de segurança é tão importante quanto investir em firewalls, sistemas de detecção ou inteligência artificial. 

Outro ponto exposto pelo episódio do Louvre é o impacto da infraestrutura obsoleta, já que o museu mantinha parte de sua operação em servidores de 2003, uma prática ainda comum de muitas instituições públicas e privadas ao redor do mundo. Sistemas legados não são, por si só, o problema, mas sim eles permanecerem conectados a ambientes críticos sem as devidas camadas de proteção, atualização ou segmentação. O desafio é encontrar o equilíbrio entre continuidade operacional e modernização segura, e isso exige planejamento técnico e visão de longo prazo.

Apesar de muitos ainda separarem o âmbito físico do digital, no Louvre foi a falha cibernética que facilitou o roubo dos objetos, reforçando o quanto essa fronteira de espaços está cada vez mais tênue. Hoje, câmeras, sensores, catracas e sistemas de alarme estão todos conectados às redes digitais e basta uma brecha de senha ou configuração mal feita para comprometer toda uma operação de segurança. Essa integração, porém, exige que as equipes de tecnologia e de segurança patrimonial atuem de forma conjunta, compartilhando responsabilidades e informações em tempo real.

No Brasil, o caso do Louvre serve de alerta especialmente para o setor público. Prefeituras, órgãos governamentais, escolas e hospitais ainda operam, em muitos casos, com sistemas antigos, acessos compartilhados e ausência de protocolos de cibersegurança. Por lidarem com dados sensíveis, de cidadãos, servidores e serviços essenciais, essas instituições são alvos frequentes de ataques, muito também porque costumam subestimar os riscos. Proteger o setor público envolve muito mais que só senhas fortes, inclui também planejamento orçamentário, capacitação de equipes e políticas de cibersegurança que não se limitem à área de TI, mas que envolvam gestores, comunicadores e servidores em todos os níveis.

Mais do que evitar incidentes, investir em segurança é agregar valor à instituição e seus serviços e produtos. Cada medida de proteção adotada, seja uma senha forte, um sistema atualizado ou uma equipe bem treinada, é um ativo intangível que preserva reputação, credibilidade e continuidade de negócios. No Louvre, as jóias roubadas foram avaliadas em milhões, mas o verdadeiro prejuízo foi institucional com a perda da confiança pública e o abalo à imagem de um dos ícones culturais global. Em um ambiente corporativo e governamental o princípio é o mesmo, com a segurança digital sendo uma questão de cultura, um dos ativos mais valiosos que uma organização pode ter.

(*) CEO da DMK3.