O que já comemos, o que vamos comer?

Ciro Rosolem (*)

Se estima que a agricultura tenha começado quando a população humana passou de nômade a sedentária, há aproximadamente 12.000 anos.

Antes disso comíamos frutas que eram encontradas na natureza, mas a proteína vinha da caça e/ou pesca. Naquele tempo, quando começou a agricultura, éramos aproximadamente 6.000.000 de almas na terra. A partir daí, os avanços tecnológicos agrícolas sustentaram o aumento exponencial da população, até os mais de 7.000.000.000 de hoje. Agora, a preocupação é: quanto cabe? Até onde podemos crescer e nos multiplicar, como recomendado na bíblia?

Enquanto a preocupação histórica era se poderíamos produzir tanta comida, hoje sabemos que existe tecnologia pronta ou quase pronta para alimentar mais de 10.000.000.000 de pessoas, mas o problema é bem mais complexo: (I) quanto podemos aumentar o sistema de produção de comida dentro de limites ambientais seguros? (II) quanto poderemos produzir a um custo que permita o acesso a comida a todas as pessoas? (III) estarão as pessoas dispostas a sacrificar o conforto e a opção ideológica-alimentar? Entre outras questões.

Então a agricultura, que no começo precisava apenas alimentar, hoje deve alimentar populações com diferentes níveis socioeconômicos, e dietas diferentes; diferentes opções de dieta, seja tradicional, vegana, orgânica, vegetariana e, recentemente, flexitariana (flexitariano: vegetarianos que eventualmente comem carnes); além de preservar e melhorar o ambiente deteriorado por outros hábitos humanos. Um pouco mais difícil.

No meio de tudo isso, ainda se vende a ideia de que a produção de proteína animal é mais nociva ao ambiente que a produção vegetal. Então o ambiente produtivo hoje, além dos aspectos técnicos, tem que levar em conta os econômico-sociais, as modas alimentares e, pasmem, fake news. Será que estamos chegando nos tempos das fake foods?

Na presente década, segundo as projeções do Panorama Agrícola 2021-30 da FAO/OCDE, a demanda alimentar deve ser reconfigurada por tendências como a substituição de carnes vermelhas por aves e vegetais em países ricos, e uma explosão do consumo no sul da Ásia, sem grande alteração nos países de menor renda. Assim, os produtos podem ser diferentes, mas sempre de origem agrícola. Entretanto, o crescimento dos alimentos não convencionais precisa ser considerado a longo prazo. Vamos viver, provavelmente, uma agricultura diferente da que estamos acostumados.

No Brasil, o Ibope apontou que 50 % dos entrevistados reduziram o consumo de carne de origem animal (como se houvesse carne de outra origem!), principalmente entre os jovens e a mulheres. Uma das primeiras foi o hamburguer vegetariano da Fazenda do Futuro, depois vieram NotCo, Beyond Meet, Impossible Foods e Veggies, além de gigantes como Seara, e, mais recentemente, JBS e Marfrig, e muitas outras. Uma das herdeiras de uma grande produtora de ovos fundou uma start up que produz ovo com base vegetal; segundo consta, vai muito bem. Hoje se encontra de peixes a maionese e leite.

O mais novo unicórnio (como são chamadas as Start Ups que valem mais de 1 bilhão de dólares) é a NotCo, chilena que produz burguers, leite, maionese. Essa empresa usa análises químicas sofisticadas da composição de cada alimento, e, através de algoritmos, reconstrói o tal a partir de matérias primas vegetais. Começou há poucos anos no Chile e hoje é multinacional. Certo que as matérias primas, na grande maioria são vegetais, mas, muitas vezes, diferentes das espécies produzidas tradicionalmente. E ainda, são produtos bem mais caros que os tradicionais.

Então, tivemos muitas revoluções agrícolas nos últimos 12.000 anos, que permitiram nossa sobrevivência até hoje. E a nova revolução, até onde vai? Interessante que o desenvolvimento humano é paradoxal: muitas das pessoas que demonizam alimentos (assim chamados) ultra-processados, advogam o consumo de “carne” de origem vegetal.

Quanto processamento é necessário para transformar ervilha em peixe e carne? Até que ponto haverá real benefício ao ambiente? Enfim, o que vamos comer?

(*) – É vice-Presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da UNESP “Júlio de Mesquita Filho”/Botucatu (www.agriculturasustentavel.org.br).

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