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A estratégia de Zuckerberg não é tecnológica. É geopolítica.

em Opinião
quarta-feira, 08 de abril de 2026

Iara Yamamoto  (*)

O movimento recente da Meta sob liderança de Mark Zuckerberg não é apenas uma estratégia corporativa, é um reposicionamento macroeconômico dentro da nova lógica de capital intensivo em inteligência artificial. 

A leitura do Meta Reports Fourth Quarter and Full Year 2025 Results1 aponta crescimento: receita de aproximadamente US$ 201 bilhões em 2025, com alta de 22% e expansão relevante de usuários e monetização publicitária. Mas o ponto central não está no resultado, está na alocação. A Meta está migrando de uma empresa de mídia digital para uma infraestrutura de IA em escala industrial. 

O acordo com a AMD torna isso explícito. A empresa fechou um contrato plurianual que pode ultrapassar US$ 100 bilhões para aquisição de chips e capacidade computacional, com implantação de até 6 gigawatts em data centers2, uma escala comparável à produção de energia de múltiplos reatores nucleares. Mais do que fornecimento, há integração estratégica: a Meta recebeu o direito de adquirir até 160 milhões de ações da AMD, podendo se tornar detentora de até 10% do capital da cadeia de suprimentos que sustenta sua própria infraestrutura3. A escolha por ser a AMD, e não apenas a Nvidia, reduz a dependência excessiva de um único fornecedor. 

A decisão de elevar investimentos para algo entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões em 2026, com despesas totais na faixa de US$162 bilhões a US$169 bilhões, indica uma aposta típica de ciclos tecnológicos: concentração de capital antes da captura de valor.4 . Esse movimento se aproxima mais de uma lógica de corrida armamentista do que de otimização de margem. Ao investir nessa escala, Zuckerberg está elevando o custo de entrada no setor a um nível que asfixia competidores. 

Há um padrão aqui. O metaverso após bilhões de investimentos sem retorno proporcional, gerou perdas acumuladas e baixa adoção. Agora, a IA assume o papel de “nova fronteira”. A diferença é que, desta vez, há monetização imediata via publicidade algorítmica e personalização, o que sustenta o fluxo de caixa no curto prazo. O fato de a IA ter rentabilização, por conta da publicidade, faz com que o mercado tolere esse tipo de investimento. Mas com olhos atentos, já que a última grande aposta não gerou o retorno esperado. 

Do ponto de vista macroeconômico, isso revela três tensões: 
Primeiro, a Meta está internalizando infraestrutura em um momento de juros ainda elevados globalmente. Isso pressiona margens (custos cresceram 40% no trimestre) e reduz flexibilidade financeira, de acordo com o Meta Reports Fourth Quarter and Full Year 2025 Results . Em ciclos anteriores, esse tipo de movimento antecede a consolidação, nem todos sobrevivem. 

Segundo, dependência de produtividade futura. O discurso de “superinteligência pessoal” sugere uma aposta em ganhos exponenciais de eficiência. No entanto, evidências de mercado indicam que a captura de valor da IA ainda é incerta, há estudos apontando baixo retorno em grande parte das empresas5 . Ou seja: o investimento é certo, o retorno é especulativo. 

Terceiro, reestruturação interna como sintoma de pressão. O Reality mantém prejuízos estáveis em relação a 2025, e mudanças de cultura com foco em desempenho indicam que o crescimento precisa compensar erros estratégicos passados. Isso não é apenas eficiência, é ajuste de sobrevivência. 

O mercado, por enquanto, tolera. A publicidade ainda financia o risco. Mas há um limite: quando o Capex cresce mais rápido que a previsibilidade de retorno, a narrativa deixa de ser inovação e passa a ser alavancagem. 

O ponto central não é se a Meta está certa. É que ela está operando em um regime onde errar custa dezenas de bilhões, e acertar redefine o próprio mercado. 

A história recente sugere cautela: grandes apostas tecnológicas tendem a alternar entre euforia e correção. A Meta está, neste momento, exatamente no meio desse ciclo.

(*) Professora da Fia Business School.

Zuckerberg agora fala em fediverso – Jornal Empresas & Negócios