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Reforma Tributária avança, mas empresas perdem ritmo de adaptação

em Mercado
quarta-feira, 07 de outubro de 2026

Nayhara Cardoso (*)

A Reforma Tributária deixou de ser uma promessa distante e virou realidade, mas os números mais recentes mostram que muitas empresas ainda não acordaram para a urgência do momento. Entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026, o ritmo de adaptação aos novos campos do IBS e da CBS despencou 52,8%, segundo dados de emissão de NF-e. Para se ter uma ideia, no início do ano a parcela de notas sem esses campos caía 4,79 pontos percentuais por mês; entre abril e junho, essa desaceleração caiu para apenas 2,26 pontos.

O alerta vem na hora em que a reforma começa a bater direto na porta das operações. Um levantamento da IOB com 967 empresas revelou que meros 5,18% tinham adequado seus cadastros fiscais às novas regras. Para completar, desde 3 de agosto, novas exigências dos documentos fiscais eletrônicos já cobram o preenchimento correto de IBS e CBS para quem está no regime regular.

Não dá mais para pensar nisso como um projeto para daqui a alguns anos. Se adequar agora é parte da rotina, e manter o ritmo é tão importante quanto ter dado o primeiro passo.

Não basta atualizar o sistema
Muita gente acha que adaptar a empresa é só atualizar o ERP ou o emissor de notas. Na prática, o desafio é mais embaixo. As empresas de software até entregam sistemas prontos para o novo layout, mas a tecnologia só processa o que recebe. Se o cadastro estiver desatualizado, a classificação errada ou a parametrização fora da realidade, o sistema vai continuar gerando falhas.

Por isso, a reforma exige um pente-fino na qualidade da informação do dia a dia: produtos, serviços, benefícios fiscais e regras do negócio precisam estar nos eixos. Essa desaceleração nos últimos meses é perigosa justamente porque não basta começar; é preciso testar, achar os gargalos e corrigir os erros antes que eles travem a empresa.

O impacto vai muito além do setor fiscal. Antes, um problema tributário ficava restrito à contabilidade. Hoje, uma nota rejeitada paralisa o faturamento, atrasa entregas, arranha contratos e sufoca o caixa. Um único erro de cadastro pode parar uma venda inteira. A adequação, portanto, deixou de ser mera burocracia para virar gestão de risco e sobrevivência operacional. A Reforma Tributária trouxe a conformidade fiscal direto para a mesa de decisão do negócio.

Isso significa que o fardo não pode cair só no colo dos contadores. O momento exige sinergia: o fiscal revisa os dados, a TI ajusta os sistemas, o comercial entende os impactos em preços e vendas, e o financeiro monitora o faturamento. Além disso, interpretar as regras e seus efeitos práticos passa a ser um hábito diário para evitar decisões precipitadas.

Essa transformação obriga áreas que antes trabalhavam isoladas a falarem a mesma língua. Com dados limpos, cadastros em dia e sistemas bem ajustados, a empresa antecipa problemas antes que eles virem um incêndio operacional.

A mensagem dos dados recentes é clara: ter começado não é suficiente; é preciso ter consistência. A queda de 52,8% na velocidade de adequação mostra que o mercado baixou a guarda antes da hora, justamente quando as novas regras começam a valer no cotidiano.

Descobrir um cadastro errado ou um sistema desajustado na hora em que a primeira nota for rejeitada vai custar muito mais caro do que se preparar com antecedência. Deixar os testes para a última hora tira qualquer margem de manobra para corrigir falhas com calma.

Mas há um lado positivo: a Reforma Tributária pode ser a alavanca perfeita para organizar processos, melhorar a governança e elevar a qualidade dos dados da empresa. Mais do que um custo, ela deve ser vista como proteção e eficiência para o negócio.

A reforma não vai começar no dia em que os novos tributos entrarem em vigor em definitivo. Ela já começou, e as empresas precisam agir agora para que um detalhe fiscal não descarrile toda a sua operação.

(*) Advogada empresarial com especialidade em Direito Tributário e Previdenciário da RGL Advogados.