Vertendo a mestiçagem

Vertendo a mestiçagem

A chamada literatura chicana, uma manifestação cultural que trata da cultura mexicana dentro dos Estados Unidos (EUA), foi investigada pela linguista da Unicamp Thaís Ribeiro Bueno no âmbito das teorias de tradução. Entre os principais apontamentos, o estudo revelou que este tipo de literatura, também conhecido como de fronteira, impõe desafios adicionais ao tradicional modelo linguístico nacionalista de tradução, ainda dominante nos dias atuais

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Casal na fronteira México-Estados Unidos

Silvio Anunciação/Jornal da Unicamp

Para a pesquisadora da Unicamp, os projetos de tradução baseados no modelo nacionalista apoiam-se em uma noção do ato tradutório como transposição de informações, de uma “língua-fonte” para uma “língua-alvo”, identificando os idiomas como blocos homogêneos, estanques e unificados.

“A tradução da chamada literatura chicana para o inglês, por exemplo, tem se tornando um problema justamente porque essa literatura se inscreve em um universo cultural desenvolvido a partir de um longo e contínuo processo de mestiçagem. A literatura chicana traz inúmeros traços do domínio do hibridismo linguístico, que desafia o modelo tradicional de tradução, calcado no mito da cultura monolíngue”, expõe a autora do estudo.

A investigação conduzida por Thaís Bueno integrou doutorado sobre o tema defendido recentemente junto ao Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. A professora Maria Viviane do Amaral Veras, que atua no Departamento de Linguística Aplicada do IEL, supervisionou a pesquisa.

Por meio do programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a linguista graduada pela Unicamp fez estágio como visiting research student na Universidade da Califórnia, em Berkeley (UC Berkeley). Coube à professora e pesquisadora americana Candace Slater a supervisão dos estudos em Berkeley.

Rhais Ribeiro Bueno, autora da tese: “A literatura chicana traz inúmeros traços do domínio do hibridismo linguístico, que desafia o modelo tradicional de tradução, calcado no mito da cultura monolíngue”.
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As considerações apontadas pelo estudo da Unicamp indicam, conforme a linguista, a necessidade de reformulação de concepções tradicionais do campo das teorias de tradução, além da adoção de perspectivas menos calcadas em noções nacionalistas de língua e cultura.

“Torna-se necessária a adoção de novas percepções a respeito do ato de traduzir para que tenhamos possibilidades reais de diálogos e articulações entre as teorias de tradução e literaturas produzidas em contextos de culturas minoritárias, como é o caso da chicana. Repensar as antigas e tradicionais concepções de tradução revela-se, portanto, uma tarefa urgente quando nos confrontamos com literaturas de fronteira.”

Resistência, apagamento e capitalismo
Thaís Bueno acrescenta que a própria literatura chicana constitui-se numa ação de resistência política e desobediência aos limites nacionalistas de tradução. A autora do trabalho explica que esta literatura de fronteira é entremeada pelo uso recorrente de diferentes idiomas, como o inglês, diversas variedades regionais do espanhol e o nahuatl, língua falada pelos astecas desde o período pré-colonial e até hoje usada por uma parcela de mexicanos.

“Os autores chicanos trazem de forma quase proposital essa mistura de línguas, como uma espécie de resistência. E a tradução, como é tradicionalmente conhecida, não consegue acompanhar isso, muito por conta deste modelo nacionalista e também por uma questão muito mercadológica, do capitalismo mesmo”, afirma.

Em relação ao aspecto comercial, Thaís Bueno explica que o objetivo das editoras com os quais os autores firmam contratos é a venda de livros para o grande público estadunidense, que não é composto, em sua maioria, por chicanos. Por este motivo, explica a autora da tese, ocorre um apagamento das marcas de hibridismo linguístico.

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“Os recursos linguísticos usados pelos autores como uma defesa ideológica da cultura chicana acabam sendo reprimidos e apagados. Tais traduções apagam quaisquer traços de hibridismo cultural expresso no texto e, por fim, invalidam o projeto literário e político dos autores chicanos.”

O apagamento das marcas literárias do hibridismo chicano deve ser compreendido, segundo a pesquisadora da Unicamp, no contexto de assimilação da cultura mexicana pela cultura dominante norte-americana. Isso ocorre a partir das primeiras ondas de imigração de mexicanos para os Estados Unidos e, mais intensamente, com o Tratado de Guadalupe Hidalgo. Firmado como alternativa para o fim da guerra entre México e Estados Unidos, o Tratado determinaria, em 1848, a anexação de parte do território mexicano pelos norte-americanos.

“Esse histórico de imigração, que é uma história violenta de desterritorialização, de ruptura de heranças culturais, vem desde 1848, quando foi firmado o Tratado de Guadalupe Hidalgo. Pelo tratado, a fronteira entre Estados Unidos e México foi estabelecida tal qual ela é hoje. Além disso, o tratado estabeleceu que os Estados Unidos poderiam anexar um território mexicano, correspondente hoje a Califórnia, Arizona, Novo México e Texas. E é por isso que nessa região há tantos descendentes de mexicanos: antigamente, a região era uma terra mexicana.”

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A linguista da Unicamp acrescenta que muitos historiadores garantem que o tratado inaugurou uma espécie de consciência chicana. “A comunidade chicana seria aquela composta por pessoas que têm ‘um pé’ em cada uma das duas culturas: a estadunidense e a mexicana.”

Em seu estudo, Thaís Bueno toma como ponto de partida o livro Borderlands/La Frontera – The New Mestiza, da feminista chicana Gloria Anzaldúa. A partir da obra, referência literária e acadêmica sobre o tema da imigração de fronteira México-EUA, a linguista promove reflexões acerca dos limites que textos como esse impõem às teorias de tradução. “O trabalho não teve o objetivo de fazer uma análise comparativa de traduções, é mais uma proposta de reflexão a partir das tensões reveladas nesta obra”, esclarece.

A partir de um olhar atento às tensões teóricas e à problemática levantada por Anzaldúa em Borderlands/La Frontera e também em outras obras da literatura chicana, a linguista desenvolveu uma análise paralela de como os dois campos em questão – o das teorias de tradução e o da literatura chicana – propõem análises e questionamentos sobre língua, cultura e a própria tradução.

“Com a articulação de elementos teóricos desses campos e com base em teorias de orientação pós-estruturalista, eu concluo que ambos apresentam possibilidades de enriquecimento mútuo, sobretudo no que tange à necessidade de superação da perspectiva nacionalista e das fronteiras políticas e à adoção de modelos que pensem a tradução como exercício do respeito à diferença.”

A autora do estudo informa ainda que a obra de Gloria Anzaldúa põe em relevo, a partir de diversos gêneros e idiomas, o contexto da imigração ilegal e a situação da mulher chicana, sujeita a inúmeras esferas de opressão – de raça, gênero, orientação sexual, classe, entre outras.

“O próprio título do livro já se apresenta em dois idiomas. A autora propõe várias questões da identidade chicana e, especificamente, sobre quem é a mulher chicana. Trata-se, acima de tudo, de uma proposta teórica construtiva para olharmos de forma interseccional para essas pessoas e toda a mestiçagem que compõe a cultura chicana.”

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