Sigmund Freud: uma vida na psicanálise

Sigmund Freud: uma vida na psicanálise

Sigmund Freud (1856-1939) foi o fundador da psicanálise, uma teoria de como a mente funciona e um método de ajudar as pessoas em sofrimento mental. Foi um dos pensadores mais influentes e controversos do século XX. Ele desenvolveu uma nova visão da existência humana.

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Sigmund Freud nasceu em 6 de maio 1856 em Freiberg, Moravia (hoje Príbor, República Checa). Era o primeiro dos oito filhos de Jacob e Amalia Freud. Naquela época, Freiberg fazia parte do vasto império austro-húngaro. Pouco tempo após o nascimento de Freud, o negócio de lã de seu pai entrou em colapso e a família foi forçada a deixar Freiberg. Em 1860, eles se mudaram para a agitada metrópole de Viena.

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A Viena de Freud era um caldeirão cultural, local de uma explosão de ideias em arte, música, literatura e ciências. O antissemitismo fervia sob a superfície, mas era uma época de grande otimismo. Entre os vienenses proeminentes estavam Gustav Mahler, Ludwig Wittgenstein, Arthur Schnitzler, Gustav Klimt e Egon Schiele. Na sociedade vienense, o sexo estava em toda parte: a “repressão social da sexualidade por meio da moralização excessiva servia apenas para chamar a atenção para o tema em todas as esferas da vida. Em sua constante ansiedade pudica, havia sempre um farejar de imoralidade […], com isso era, de fato, obrigatório manter-se vivendo sobre o imoral” (Stefan Zweig).

Muito antes de desenvolver a psicanálise, Freud já havia se destacado como um pesquisador científico e médico. Matriculou-se na Universidade de Viena em 1873, e teve aulas de anatomia, química, botânica, fisiologia e física. Ele queria ser um cientista naturalista. Era um momento de enorme progresso científico, e ele era um grande admirador de Charles Darwin, cuja descoberta dos processos evolutivos havia revolucionado a biologia. Logo tornou-se especialista em anatomia neurológica. Seu trabalho era de vanguarda na pesquisa neurológica, e ele publicou vários estudos sobre o sistema nervoso dos peixes. Também escreveu livros significativos sobre a paralisia cerebral infantil e afasia (distúrbios de linguagem), bem como uma monografia sobre as propriedades anestésicas da cocaína.

Em 1882, Freud conheceu Martha Bernays e imediatamente se apaixonou por ela. Ficaram noivos secretamente dois meses mais tarde, mas não se casaram até 1886. Para sustentar a família, ele deixou seu cargo na pesquisa para se formar como médico. Montou seu consultório particular em 1886, especializando-se em distúrbios do sistema nervoso.

Durante sua formação médica, Freud havia recebido uma bolsa para estudar em Paris com o neurologista francês Jean-Martin Charcot. Charcot era conhecido por suas manifestações teatrais nas quais hipnotizava pacientes histéricos diante do público, e manipulava os sintomas dos pacientes por meio da sugestão. Isso levou Freud a se perguntar se os sintomas físicos poderiam ter uma causa psicológica.

Bertha Pappenheim
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Um dos amigos e mentores de Freud era o médico Josef Breuer. Breuer havia contado a Freud sobre uma paciente, Bertha Pappenheim, que adoeceu enquanto cuidava do pai moribundo. Ele havia verificado que cada um dos sintomas de Bertha parecia estar ligado a uma memória traumática esquecido. Sob hipnose, ela poderia recuperar essas memórias, e isso faria com que os sintomas desaparecessem. Breuer chamada esta técnica de método catártico. Pappenheim chamou de cura pela fala.

Influenciado por Charcot e Breuer, Freud começou a tentar usar a hipnose de forma terapêutica, mas em pouco tempo desenvolveu uma técnica diferente. Convidava seus pacientes a se deitar no seu sofá e a dizer o que lhes viesse à cabeça, sem reter pensamentos ou memórias que parecessem desagradáveis, triviais ou ridículos. Ele chamou esta técnica de livre associação. Por meio da livre associação, conexões inesperadas de pensamentos começavam a se revelar, com frequência levando seus pacientes de fragmentos aparentemente inúteis da vida cotidiana até os seus pensamentos e desejos mais íntimos. A livre associação é central para a psicanálise.

Sergei K. Pankejeff
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A aplicação do método de livre associação aos sonhos, lapsos de linguagem e sintomas levaram Freud a propor a existência de um inconsciente dinâmico, que contém ideias que a mente esforça-se ativamente para evitar, mas que se mantém voltando à consciência sob formas disfarçadas. Um dos pacientes mais famosos de Freud foi Sergei Pankejeff. O pesadelo de infância que ele contou à Freud e que mais tarde foi retratado nesta pintura deu a ele o apelido de o “Homem Lobo”. Sua interpretação por meio da livre associação abriu um mundo oculto de desejos infantis e ansiedades.

Freud muitas vezes comparava a psicanálise à arqueologia. Ele mesmo era um apaixonado colecionador, tendo acumulado mais de 2.500 objetos de civilizações antigas. “Imagine que um explorador chega a uma região pouco conhecida onde seu interesse é despertado por uma extensão de ruínas. Ele pode ter levado consigo picaretas, pás e enxadas, e pode contratar os habitantes para trabalhar com essas ferramentas. Junto com eles, ele pode começar com as ruínas, retirar o lixo, e, a partir dos restos visíveis, descobrir o que está enterrado” (Sigmund Freud).

As escavações de Freud no inconsciente revelaram alguns resultados surpreendentes.

Revelou atitudes emocionais complexas em relação aos pais e irmãos em seus pacientes, levando-o a ver a infância como um período de intensos sentimentos de amor, ódio, inveja e medo. Ele descreveu esta situação precoce como o complexo de Édipo, com base no mito grego de Édipo, que inadvertidamente mata o pai e se casa com a mãe. Uma das descobertas mais surpreendentes de Freud foi o significado da sexualidade como uma força motriz na vida de seus pacientes.

Mas ele percebeu que a sexualidade estava ligada não apenas ao prazer, mas também à ansiedade. Sua descrição sobre a sexualidade era muito diferente de definições tradicionais. Ele descobriu componentes da sexualidade por todo o corpo, e os conduziu a um período muito cedo da infância do que normalmente se acreditava surgir. A primeira experiência de satisfação de um bebê, ele observou, está no seio da mãe. Freud muitas vezes referia-se a Eros, o deus grego do amor, para dar forma a sua teoria da libido, que englobava a sexualidade em um sentido muito mais amplo do que as definições convencionais de um instinto reprodutivo.

Com a sua compreensão da fluidez da sexualidade, Freud tinha uma visão muito esclarecida sobre a homossexualidade. “A homossexualidade não representa, com segurança, qualquer vantagem, mas não é nada para se envergonhar, nenhum vício, nenhuma degradação. Ela não pode ser classificada como uma doença, nós consideramos que seja uma variação da função sexual, produzida por uma certa retenção do desenvolvimento sexual. Muitos indivíduos altamente respeitáveis??de épocas antigas e dos tempos modernos são homossexuais, vários dos maiores homens entre eles. […] É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como crime, e é também uma crueldade”.

Adolfine, a primeira à direita, com as irmãs Pauline, Marie e Anna, em 1932.
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Freud passou a se referir ao conjunto de unidades que impulsionam à satisfação como o id. Ele comparou a relação do ego consciente com o id inconsciente a um cavaleiro e um cavalo. “Com muita frequência a situação entre o ego e o id está longe do ideal: o cavaleiro não tem outra escolha além de guiar o cavalo em qualquer direção que ele queira ir”.

A psicanálise descreve um quadro preocupante de seres humanos. Revela uma mente dividida contra si mesma, com falta de autoconhecimento e governada por impulsos instintivos incontroláveis. Por causa de suas implicações perturbadoras, Freud comparou suas descobertas às do astrônomo Nicolau Copérnico, o primeiro a descobrir que o Sol não girava em torno da Terra. Assim como Copérnico demonstrou que o homem não é o centro do universo, Freud mostrou que não estamos nem mesmo à vontade em nossas próprias mentes. “O ego não é o mestre em sua própria casa”.

Em 1933, os nazistas chegaram ao poder na Alemanha. Os nazistas consideravam a psicanálise repugnante, até porque Freud era judeu. Quando os nazistas entraram na Áustria, em 1938, Freud e sua família foram forçados a fugir. Os nazistas tornaram a partida dos judeus extremamente difícil. Impuseram um “Imposto de Refugiado” de 31.329 marcos para Freud, aproximadamente o equivalente a £ 150.000 hoje. O imposto foi pago pela amiga e colega milionária de Freud, Princesa Marie Bonaparte.

Após uma luta de quase três meses de obter os documentos, Freud e sua família finalmente partiram para Londres pelo Orient Express em 4 de junho de 1938. Quatro de suas irmãs não tiveram a mesma sorte. Impossibilitadas de escapar, Pauline, Adolfine, Marie e Rosa Freud mais tarde morreram em campos de concentração nazistas.

Fumante inveterado, Freud havia sido diagnosticado com câncer na mandíbula e na boca, em 1923. Passou os últimos 16 anos de sua vida sofrendo com a doença. Parte de sua mandíbula foi removida, e ele foi forçado a usar uma prótese dolorosa. Em 23 de setembro de 1939, três semanas após o início da Segunda Guerra Mundial, Sigmund Freud morreu em sua casa, 20 Maresfield Gardens, Londres. A biblioteca, a coleção e o sofá psicanalítico mundialmente famoso de Sigmund Freud ainda estão em sua última casa, mas a psicanálise está longe de ser uma peça de museu.

Freud é rotineiramente declarado “morto”, mas seu legado continua a voltar a nos assombrar. A psicanálise foi uma das teorias mais influentes do século 20. Hoje, é praticada por milhares de profissionais em todo o mundo. O legado de Freud se estende muito além do sofá. Estende-se por disciplinas que vão desde a psicologia à literatura e arte. Suas ideias continuam a influenciar a forma como entendemos a nós mesmos, e fornecem uma ferramenta vital para dar sentido a um mundo mutável e perturbado.

Sigmund Freud deu forma à ideia do século XX sobre o que é uma pessoa, nós não nos reconheceríamos sem ele. Sua influência reverbera em Henry James e Virgínia Woolf, Alfred Hitchcock e David Lynch, a arte dos surrealistas e a atração de propagandas. As histórias de Freud se tornaram nossas histórias, seu mapa o nosso mapa, suas perguntas nossas perguntas.

Fonte: Freud Museum London

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