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O que acontecerá com o Reino Unido após o referendo?

em Especial
quarta-feira, 22 de junho de 2016
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O que acontecerá com o Reino Unido após o referendo?

Mais de 46 milhões de britânicos irão às urnas hoje (23) para decidir se o Reino Unido deve romper ou não seu casamento de 43 anos com a União Europeia, ainda sob a comoção pelo assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, que jogou ainda mais dúvidas sobre uma disputa já bastante acirrada.
A última pesquisa de intenção de voto, publicada pelo instituto Opinium ontem (22), mostra os eurocéticos liderando por 45% a 44% – quatro dias atrás o placar era de 44% a 44%. Os números indicam que a parcela de pouco mais de 10% de indecisos será o fiel da balança, mas é preciso ver as sondagens com certa reserva.

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Em setembro de 2014, pouco antes do plebiscito sobre a independência da Escócia, as pesquisas apontavam para uma vitória bastante apertada dos unionistas, mas as urnas deram a eles um triunfo de mais de 10 pontos de vantagem. O certo é que, independentemente do resultado de hoje, tanto Londres quanto Bruxelas terão de mostrar uma capacidade de liderança que faltou até aqui e cuja ausência permitiu que a União Europeia e sua segunda maior economia chegassem à beira do divórcio.

Confira abaixo alguns dos cenários possíveis para o pós-referendo:

– Em caso de vitória do “Leave” (“Saída”)
Se os eurocéticos vencerem, a União Europeia perderá sua segunda maior economia, ficará sem um de seus maiores contribuintes (terceiro ou quarto, dependendo do ano) e pode presenciar um movimento de reconfiguração geopolítica do bloco. Isso porque um dos desdobramentos de um rompimento seria o fortalecimento dos anseios separatistas na Escócia, onde as pesquisas para o referendo dão ampla vantagem para os europeístas.

Caso esse cenário se confirme, os nacionalistas se veriam ainda menos representados por uma Londres eurocética. “Nações sem Estado, como Catalunha, País Basco e Lombardia, podem se sentir tentadas a buscar a independência e o relacionamento direto com a União Europeia”, explicou Marcus Vinicius de Freitas, professor de relações internacionais da Faap.

Isso pode aumentar a tensão em nações como Espanha, França e Itália, sendo que estas duas últimas já concentram movimentos eurocéticos consistentes e que gozam de amplo apoio popular. “Acho muito provável, caso o resultado seja ‘não’ [à UE], que a pressão para a Escócia ter outro plebiscito sobre independência aumente muito”, salienta o professor Kai Lehmann, do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Para Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, todos na União Europeia perderiam economicamente se o Reino Unido sair.Ele lembra que o ceticismo em relação à União Europeia está se espalhando por muitos países, incluindo tradicionais defensores de Bruxelas, como Alemanha e Holanda. “Seja vitória do sim ou do não, a União Europeia tem de refletir sobre seus rumos”, acrescenta. Além disso, há o risco de desestabilização interna no Reino Unido. O Partido Conservador, liderado por David Cameron, tem se mostrado dividido sobre o referendo, pendendo mais para a saída, porém o primeiro-ministro fez campanha pela permanência.

Uma derrota nas urnas certamente aumentará a pressão por sua renúncia. O chefe de governo ainda poderia se ver ameaçado no cargo enquanto negocia as condições para a retirada britânica, com a possibilidade de a UE fazer jogo duro. Londres e Bruxelas sentarão à mesa para renegociar suas relações em uma série de áreas, como imigração, inteligência e, principalmente, economia.

Uma das hipóteses seria o Reino Unido manter um acordo de livre comércio com o bloco, como fazem Suíça e Noruega, mas aí o país teria de se adaptar a algumas regras europeias, as mesmas das quais boa parte dos britânicos quer fugir. “A UE pode endurecer o processo de saída como forma de aprendizado para países que estejam considerando essa possibilidade. Mas, se o Reino Unido se der melhor fora da União Europeia, isso pode desestabilizar o projeto europeu”, destaca Freitas.

David Cameron: "pensem nas esperanças e sonhos de seus filhos e seus netos. Suas possibilidades de trabalhar, de viajar depende do resultado do referendo"– Em caso de vitória do “Remain” (“Permanência”)
O principal desdobramento de um triunfo europeísta é saber até que ponto as concessões negociadas pelo Reino Unido serão de fato entregues pela União Europeia. O acordo com Bruxelas dará a Londres um “status especial”, nas palavras de Cameron, e limitará sua integração política ao bloco.

Se permanecerem, os britânicos manterão a perspectiva de uma UE voltada apenas a um projeto comercial, mas essa espécie de “Europa à la carte”, com o Reino Unido usando apenas aquilo que lhe interessa, também pode prejudicar o projeto comum. “Isso criaria uma Europa com velocidades de integração diferentes. Quando você tem várias velocidades dentro do mesmo corpo, ele começa a se desintegrar”, diz o professor da Faap.

Bandeiras da Grã-Bretanha e União Europeia vistas em Londres.Na visão de Londres, é preciso empoderar o seu Parlamento e reduzir as competências de Bruxelas, negociando novos níveis de contribuição para a União Europeia e rechaçando regras comuns de política fiscal e regulamentação bancária. Por outro lado, uma eventual vitória europeísta poderia arrefecer por um momento o ânimo de movimentos eurocéticos em outros países, que estão prontos para subir o tom caso as urnas digam “sim” ao divórcio (ANSA).