Miguel de Cervantes: escritos para a humanidade

Miguel de Cervantes: escritos para a humanidade

A data exata de nascimento de Miguel de Cervantes é desconhecida: sabe-se que ele foi batizado no dia 9 de outubro de 1547 e estima-se que ele tenha nascido pouco antes, em 29 de setembro, quando se celebra a festa do arcanjo São Miguel. Devido à falta de documentação da época, toda sua vida é cercada de mistérios e estimativas

Ana Saiz García, David Fernández Vaamonde
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Paróquia Santa María la Mayor, em Alcalá de Henares, onde estão os documentos de batismo de Miguel de Cervantes.

Ana Elisa Santana/EBC

Antes de se dedicar às letras, Miguel de Cervantes foi um homem de armas – período do qual se orgulhava muito. Ele fez parte da Armada Invencível, a mais famosas das esquadras da marinha espanhola, e lutou na Batalha de Lepanto, em que a Espanha venceu os turcos. Nessa batalha ele sofreu um grave ferimento que limitou os movimentos do braço esquerdo, “‘para la gloria de la mano derecha’, como diz o próprio Cervantes no prólogo da segunda parte do Quixote, de 1615”, lembra a professora Rosângela Schardong, da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Em 1569, ele teria fugido para a Itália após esse ferimento. Em 1575, foi capturado em Argel, onde ficou preso até conseguir pagar seu resgate, em 1580. Viveu também em Portugal, entre 1581 e 1583, e no ano seguinte, ao finalmente voltar para Castela, casou-se com Catalina de Salazar e passou a viver em Esquivias, povoado de La Mancha de onde era sua esposa. Cervantes viveu por 68 anos, e morreu em 22 de abril de 1616. O registro de sua morte, no entanto, foi feito no enterro, no dia 23. Em memória ao escritor, em 23 de abril é comemorado o Dia do Livro na Espanha.

Cervantes já havia escrito algumas obras e poemas, mas um pequeno e sofisticado público conheceu o escritor após a publicação de seu primeiro livro de ficção, A Galetea, editado em 1585. Em 1597, ele foi preso e passou a se dedicar à construção da história de Dom Quixote de La Mancha, obra que teve sua primeira parte publicada em 1605 e o tornaria um ícone da literatura mundial.

O romance Dom Quixote de La Mancha conta a trajetória de Alonso Quijano, um senhor fidalgo que é obsessivo pela leitura de livros de cavalaria – muito populares à época -. Ele acredita que pode se tornar um cavaleiro andante e, a partir de então, faz em sua mente viagens nas quais se encontra com damas em apuros, gigantes, monstros e até moinhos de vento, que para ele eram seres vivos. Combatendo as injustiças, o personagem enfrenta situações penosas e ridículas, mantendo, porém, uma figura nobre e patética.

Miguel de Cervantes é o mais famoso escritor espanhol de todos os tempos.
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Cervantes inovou a literatura da época ao reunir na mesma narrativa características de diversos gêneros literários, discursivos e de poesia. “Ele vai experimentando formas novas; traz elementos do romance pastoril, da comédia, tragédia, dos relatos orais, do teatro; e por isso surge um modo novo de escrever os romances”, explica a professora Rosângela Schardong, da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Uma das obras mais editadas no mundo, em 2002 Quixote foi escolhido como o melhor livro de todos os tempos por um conjunto de 100 escritores de 54 países, em uma iniciativa do Instituto Nobel, na Noruega. “É um testamento da humanidade; é um livro que foi muito popular em sua época e tem elementos que são fundamentais para a história da literatura mundial, não somente da Espanha”, afirma Jorge Agulló Coves, professor de língua espanhola do Instituto Cervantes de Brasília.

Para a professora Rosângela Schordong, as características humanas nos personagens de Dom Quixote foram fator determinante para tornar a obra célebre. “Cervantes é brilhante em ilustrar a grande variedade de seres humanos; ele não faz uma obra que tem só personagens da nobreza, mas muitos das camadas mais populares, e registra o modo de falar, o modo de sentir e os conflitos desses personagens”, aponta. O relato de questões históricas importantes também aparecem no enredo: “mesmo dentro de uma paródia, ele insere questões sócio-culturais muito sérias para a época, como a perseguição aos Mouros, a intolerância religiosa; e ele faz isso com um sentimento humano muito apurado”, afirma Rosângela.

A representação das mulheres em Quixote também chama a atenção, segundo a professora. “Cervantes é brilhante na representação do grande leque de possibilidades do caráter, da sensibilidade humana, por isso há muitas mulheres na obra. A mais constante é a Dulcinéia, a amada do Dom Quixote, que representaria o ideal do feminino, de beleza, de sublimidade, de doçura. Ela é um personagem que não existe, mas alimenta o mundo do sonho do cavaleiro andante”, pontua. Outras personagens, por outro lado, aparecem como inteligentes e muito valentes. “São mulheres que naquela época eram consideradas varonis, porque se considerava que essa firmeza de ânimo, essa coragem, essa valentia eram atributos masculinos”, diz.

Ilustração da segunda parte do livro Dom Quixote de La Mancha.
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Os diálogos entre Quixote e seu companheiro, Sancho Pança, têm uma riqueza linguística admirável, segundo o professor Agulló Coves. “Muitas das expressões foram retiradas da linguagem da época; outra parte ele inventou”, afirma, mostrando algumas que são utilizadas até os dias atuais e têm suas versões também na língua portuguesa:

* A Dios rogando y con el mazo dando (bom por um lado, difícil por outro)
* Al ben entendedor, pocas palabras (Para o bom entendedor, meia palavra basta)
* Del dicho al hecho hay gran trecho (Não se deve confiar em promessas ou aparências)
* De noche todos los gatos son pardos (Se não há transparência, é difícil enxergar defeitos)
* Gato por libre (Gato por lebre – algo de qualidade menor do que a esperada)
* No hay más límite que el cielo (Não há limites para as apirações)
* No es oro todo lo que reluce (Nem tudo que reluz é ouro)

Escrever de forma que fosse compreensível para todos os públicos foi uma preocupação de Cervantes: a intenção está descrita no prólogo de Novelas Exemplares, de 1613. E esta talvez seja a característica que o tornou tão conhecido. “Apesar de ele escrever de uma forma culta, a linguagem é muito mais elegante do que erudita, justamente para ser entendida pela maioria das pessoas”, explica Rosângela.

Apesar da inegável relevância para a literatura, a obra de Cervantes não se resume a Dom Quixote. Entre seus livros menos conhecidos, o romance bizantino Perfiles, cujo prólogo foi escrito semanas antes de sua morte, é o que o escritor espanhol julgava ser sua melhor obra, segundo a professora. “São as aventuras de um casal de apaixonados que tem problemas familiares e fogem para Roma. Nesse caminho eles encontram várias pessoas, dificuldades e obstáculos. É uma obra de aventura, tem um valor literário e humano muito grande e que é pouco estudada. Ela merece a nossa leitura e atenção”.

O reconhecimento do autor de Dom Quixote faz com que, por vezes, a língua espanhola seja chamada de “a língua de Cervantes”. Atualmente, o espanhol é um dos idiomas mais estudados em todo o mundo. Assim como todas as línguas, o espanhol sofreu modificações no decorrer do tempo. A partir do século XVIII a preocupação com a padronização aumentou e foram publicados livros e gramáticas que tinham o objetivo de preservá-la. Por isso, a língua espanhola atual é bastante parecida com à daquela época enquanto o espanhol medieval, por outro lado, é de difícil compreensão.
Hoje a língua espanhola é falada por mais de 500 milhões de pessoas em todo o mundo e, com a variedade de países hispanohablantes, é impossível não haver variações linguísticas. As diferenças, segundo o professor do Instituto Cervantes Jorge Agulló Coves, se concentram em palavras do vocabulário, especialmente de frutas, roupas, objetos, etc., apesar de também aparecerem em questões gramaticais, com conjugações diversas para alguns verbos. “No entanto, temos um tronco que faz com que nós possamos nos comunicar sem nenhum problema”, explica o professor.

Brasileiros e outros lusófonos – pessoas que falam a língua portuguesa – têm vantagem na hora de aprender a língua espanhola, segundo Agulló Coves. Ele explica que na língua portuguesa há mais sons, mais vogais abertas, o que faz com que o caminho contrário – hispanohablantes aprenderem o português – é mais difícil. “Nós temos que aprender a pronunciar e reconhecer alguns sons que não temos; esta é a primeira dificuldade. Mas eu não diria que é muito mais difícil. Quem fala portugês tem dificuldade, por exemplo, com a pronúnica do ‘R’, em que nós usamos a ponta da língua enquanto vocês usam a garganta”, exemplifica.

Uma armadilha podem ser os falsos amigos: palavras que têm a escrita ou pronúncia iguais à língua portuguesa, mas carregam significado diferente. É necessário cuidado e dedicação no aprendizado para não provocar situações de mal-entendido ou até contrangimento, uma vez que as semelhanças ao português fazem a língua espanhola parecer mais fácil do que a língua inglesa, por exemplo. “O estudante tem que escutar com atenção para ver quais são as palavras em espanhol, comparar com o português, conhecer as estruturas e ir construindo aos poucos esse conhecimento”, aconselha o professor.

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