Agrotóxico utilizado contra fungos também pode matar abelhas

Agrotóxico utilizado contra fungos também pode matar abelhas

Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, em parceria com cientistas da Universidade Federal de Viçosa (UFV), revelou que o cerconil, agrotóxico utilizado no Brasil para matar fungos, também pode ser letal para abelhas.

Foto: AFP PHOTO / RAYMOND ROIG

Henrique Fontes/Jornal da USP

O trabalho mostrou ainda que, mesmo aquelas que resistem inicialmente aos efeitos do produto químico, passam a se comportar como se estivessem mais velhas, indicando que não viverão por muito tempo.

Os resultados foram obtidos a partir do programa de computador desenvolvido por Jordão Natal durante seu mestrado na USP. O sistema analisou, durante 10 dias, o comportamento de 200 abelhas contaminadas com o fungicida, que é muito comum no combate a pragas de meloeiro e melancia. Elas foram colocadas junto a outras 800 abelhas saudáveis dentro de uma caixa cercada por vidros transparentes, onde câmeras registravam seus movimentos.

Para diferenciar as abelhas saudáveis das contaminadas, uma marca com tinta foi feita nas costas das que ingeriram o agrotóxico. “Até o décimo dia, 65% das abelhas contaminadas haviam morrido. Já as que resistiram, tiveram seu comportamento alterado, aparentando estarem idosas, já que faziam atividades incompatíveis com a idade, como tarefas de limpeza e a procura por alimentos”, relata Natal, que teve sua pesquisa financiada pela Capes.

Vale ressaltar que as abelhas vivem, em média, 44 dias, ou seja, a maioria delas estaria morrendo antes de completar um quarto de suas vidas. Algo que ajudou o sistema a interpretar essa grande quantidade de dados ao final do período analisado foi a localização das abelhas contaminadas dentro da caixa. A posição das polinizadoras tende a revelar em que fase da vida elas estão, pois, conforme elas envelhecem, se aproximam das extremidades.

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Figura ilustra trajetória percorrida pelas abelhas dentro da caixa. Foto: Jordão Natal/Divulgação

“O software foi capaz de monitorar as ações de cada uma das abelhas, o que é uma tarefa muito difícil, por serem animais de tamanho semelhante, que estão quase sempre em movimento e se cruzando rapidamente”, explica Carlos Maciel, professor do Departamento de Engenharia Elétrica e de Computação (SEL) da EESC e orientador da pesquisa.

Apesar do desafio, o programa, que levou cerca de 10 meses para ser desenvolvido e captura até 30 fotos por segundo, apresentou um índice de 99% de precisão. Contaminadas com doses não letais de cerconil no apiário da UFV, as abelhas utilizadas no estudo são da espécie Apis mellífera, a mais comum do mundo.

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Abelhas também podem ser vítimas de fungicida. Foto: Myriams-via Pixabay/CC0

“O que mais nos chocou foi descobrir que um fungicida até então inofensivo para abelhas se mostrou mais tóxico que o imidaclopride, inseticida considerado o grande vilão dos cultivos agrícolas. Os dados são preocupantes”, afirma Eugênio de Oliveira, professor de entomologia da UFV.

Apesar de ainda não haver um entendimento sobre o motivo de o fungicida ter levado as abelhas à morte, o docente suspeita que o produto pode estar anulando os efeitos de enzimas responsáveis pela desintoxicação desses insetos. No trabalho, os pesquisadores também analisaram o comportamento de abelhas que ingeriram o imidaclopride.
Derivado da nicotina, o produto normalmente é aplicado em pomares, plantações de arroz, algodão e batata e, embora seja proibido em diversos países, seu uso ainda é permitido no Brasil. O software da USP mostrou que aproximadamente 52% das abelhas contaminadas com o agroquímico estavam mortas no décimo dia.

“A extinção das abelhas é uma preocupação global, pois se trata de um problema que não afeta apenas o meio ambiente, mas também a economia. Elas participam de boa parte da polinização de nossos alimentos, alguns deles, inclusive, polinizados exclusivamente por elas”, alerta Maciel, que também é pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Sistemas Autônomos Cooperativos (InSAC), sediado no SEL.

Segundo o estudo realizado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), em parceria com a Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador (Rebipp), o valor do trabalho prestado pelos animais polinizadores à agricultura brasileira gira em torno de R$ 43 bilhões por ano. O levantamento considerou 67 cultivos, sendo que a soja, primeira colocada, responde por 60% do valor estimado, seguida pelo café (12%), laranja (5%) e maçã (4%).

Com a nova tecnologia criada na EESC, que já está pronta para ser utilizada no mercado, a missão de compreender o comportamento de animais que atuam de forma coletiva se tornou mais simples, pois toda interação entre esses organismos e o meio ambiente poderá ser “ensinada” para o computador em forma de algoritmos.

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Carlos Maciel e Jordão Natal desenvolveram um sistema inédito para monitorar o comportamento de animais que atuam de forma coletiva. Foto: Henrique Fontes/SEL

“O que o sistema fez em semanas, nós levaríamos alguns anos para mensurar”, comemora Eugênio. Combinando técnicas de inteligência artificial e big data, o software desenvolvido conseguiu analisar dezenas de horas de vídeo, totalizando 700 gigabytes de material. A partir de agora, os pesquisadores pretendem estudar o comportamento de abelhas contaminadas com outros tipos de agrotóxicos, a fim de ampliar o entendimento a respeito dos efeitos desses produtos químicos.

As cidades e as mudanças climáticas

Luiz Pladevall (*)

Tão linda, tão bela… e agora tão quente. Assim é a cidade de Paris no verão europeu

Temperaturas recordes que provocaram um sufoco danado em milhares de pessoas. Sem dúvidas, o calor que atinge o Hemisfério Norte é resultado direto das mudanças climáticas, que vêm se acelerando nos últimos anos. O paulistano já sabe muito bem o que isso quer dizer. Entre 2014 e 2016, a crise hídrica que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo disparou o alerta sobre o uso racional dos recursos hídricos.
Por outro lado, no último verão, as fortes chuvas que atingiram a capital paulista inundaram ruas e avenidas, provocaram destruição e deixaram o morador da capital de São Paulo em alerta. Os desastres naturais não escolhem nações. Até mesmo os EUA se deparou, em setembro de 2018, com as tempestades que atingiram a Carolina do Norte. O resultado dessa catástrofe se traduziu em cerca de 120 mil pessoas desalojadas. Em 2013, no também estado norte-americano do Colorado, 12 mil pessoas tiveram que deixar suas casas atingidas pelas tempestades.
As mudanças climáticas cada vez mais estarão presentes no nosso cotidiano. Os efeitos devastadores como em Paris, São Paulo ou nos EUA vão incomodar com mais frequência as populações, principalmente das regiões metropolitanas. As cidades e os moradores não estão preparados para enfrentar situações extremas. No caso das enchentes, nem mesmo dispositivos de prevenção, como os piscinões, são capazes de suportar o volume das águas das chuvas.
A ciência já nos permite antever esses fenômenos extremos com algumas horas de antecedência, mas os estragos são inevitáveis diante do volume de chuvas. Os municípios têm a possibilidade de construir piscinões e parques lineares como forma de reduzir esses impactos. Outra medida é investir pesadamente na destinação correta do lixo, que durante as tempestades entopem os bueiros, aumentando ainda mais os estragos.
Mas precisamos ir além das medidas para diminuir os impactos das mudanças climáticas. Nosso papel é repensar no nosso modelo de uso dos recursos naturais e buscar preservá-los para reduzir os problemas já presentes no nosso dia a dia. Caso contrário, as vidas nas cidades ficarão cada vez mais difíceis.

(*) – É presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente, e vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental.

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