Todo artista é um empreendedor

César Munhoz (*)

Todos temos contato com o resultado do trabalho de artistas, seja esse resultado uma música, um filme, série, quadro, escultura, uma estampa de camiseta, um meme… Mas pouco sabemos sobre como vive um artista. Sua rotina diária, seus processos de trabalho, seus horários, seu papel na economia de uma comunidade, sua matriz de renda. Quando alguém fala de vida de artista, qual é a primeira imagem que vem à mente? Boemia? Lazer? Ócio? Aventura? Poucas vezes pensamos na figura de um empreendedor.

A alcunha de artista se aplica a uma miríade de profissões diferentes. Artista pode ser ilustrador, fotógrafo, escritor, performer, animador de festa, palhaço, músico, artesão, pintor, roteirista, ator, figurinista, sound designer, dublador, animador 3D, escultor, criador de móveis personalizados, designer de moda, cenógrafo, maquiador… Olhando por esse prisma, é bem possível que cada círculo familiar brasileiro tenha, pelo menos, um ou dois artistas em atividade, senão mais. Ou seja, um artista não está assim tão longe da realidade de qualquer pessoa que tem um trabalho tradicional. Cada uma dessas profissões tem um modus operandi, estilo de vida e fluxo de renda diferente. Variam também os deliverables e o valor destes deliverables. O artista vende o quê? Um produto? Um serviço? Uma experiência? Uma memória? Pra que serve? Quem compra? E quanto paga?

Ao contrário das fantasias que circulam pelo imaginário popular, artistas são normalmente indivíduos muito bem educados nas esferas financeira e administrativa. A complexidade em tornar visível e tangível o valor da arte faz com que o artista seja um exímio problem solver, pensando sempre e cada vez mais em formas de gerar renda com aquilo que cria.

Artistas sabem como tirar leite de pedra. Sabem lidar com tempos áridos. Sabem ouvir não, aprender e se adaptar. A pandemia é um destes exemplos. Se pensarmos apenas no universo da música, temos um leque de profissionais de diversas especialidades que teve que se reinventar para manter a geladeira abastecida. Temos músicos vendendo serenatas em vídeo por whatsapp para dia das mães, namorados e outras datas. Profissionais de eventos dominando, em poucos dias, a tecnologia de streaming para atender seus clientes. Cantores da noite aprendendo, do zero e a toque de caixa, a criar conteúdo diário e monetizar vídeos. Se já era complexo tangibilizar o deliverable do artista, agora foi a prova de fogo.

A veia empreendedora do artista é cada vez mais evidente, e o universo corporativo está de olho nisso. Artistas têm sido reconhecidos como catalisadores de inovação e desatadores de nós. Não é de hoje que empresas como Apple, Facebook e Google contratam artistas residentes, cujo papel é trazer para equipes das mais diversas áreas a capacidade de “ver além do alcance”, por meio de dinâmicas, projetos especiais e outras proposições que desafiam a nomenclatura corporativa. E, justamente por desafiar a nomenclatura corporativa, estas proposições têm o potencial de fazer uma empresa enxergar oportunidades que nenhuma pesquisa, método, ou processo “normal” das coisas identifica.

Ao navegar tanto pelo universo da abstração, quanto pelo da escassez do dia-a-dia, o artista lida, literalmente, com o campo da magia, e desse campo podem surgir grandes ideias, seja de produtos e serviços, seja de novas formas de se relacionar com a comunidade, de preferência mais autênticas e humanas. Principalmente em tempos como este, em que tudo parece impossível, confuso e imprevisível, a existência empreendedora do artista, assim como a sua obra, merecem ser vistas e valorizadas.

(*) É artista, comunicador e produtor de ativos de entretenimento para projetos no Brasil, Estados Unidos, Suécia e Austrália. Mestre em Entertainment Business pela Full Sail University, com formação em Jornalismo, Publicidade e Cinema pela UTP, Planejamento de Comunicação Integrada pela FAO, Sound Design pela Escola São Paulo de Economia Criativa e Escuela Sonica Buenos Aires. Comanda, toda quarta 19h, a live “Arte, Entretenimento e Conexões” nos canais da Full Sail Brazil Community (cesarmunhoz.com).

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