PIX e o mercado de meios de pagamentos no Brasil

Em 2002, quando o Banco Central do Brasil implantou o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), boa parte dos pagamentos em lojas e outras transações comerciais era feita por meio de cheques (ou DOCs) e o processo de compensação demorava desde um dia até alguns dias, para gerar os créditos em conta. Com o SPB surgiu a TED, que permitia pagamentos com resultados em menos de uma hora, desde que feitos dentro de horários semelhantes aos de funcionamento das agências bancárias.

As empresas do mercado de cartões, logo viram uma oportunidade e em pouco tempo os cheques caíram em desuso, sendo amplamente substituídos por cartões de crédito e débito, chamados de dinheiro de plástico. Evoluções mais recentes da tecnologia permitiram dispositivos NFC (Near Field Communication) e com isso o cartão virou pulseira, relógio, anel…O fato é que nos apropriamos de tais dispositivos, práticas e sistemas e nos acostumamos a utilizar moedas virtuais para os negócios, baseado na crença da credibilidade. Quem está recebendo o pagamento acredita que irá receber de fato os recursos financeiros e que esses recursos serão igualmente aceitos em suas compras e pagamentos. Claro, as transações sempre são feitas em uma moeda oficial, garantida soberanamente pelo país emissor e seu sistema regulatório.

Em fevereiro de 2021 o Banco Central do Brasil (BACEN) implantou um sistema de pagamentos instantâneos, chamado de PIX. Esse sistema utiliza recursos de segurança que garantem a integridade das transações de transferência de recursos, ou seja, o valor que é debitado de uma conta é o mesmo valor que será creditado na conta de destino. Em segundos, todo o processo é efetivado. Além disso, ele está disponível 24 horas por dia e todos os dias da semana.

Mais de 700 bancos e fintechs participaram de testes e foram homologados pelo BACEN para operar no sistema. Essas empresas passaram a solicitar aos seus clientes que cadastrassem suas chaves PIX, as quais podem ser CPF, e-mail, telefone, chave aleatória, ou uma imagem do tipo QR Code. Já sabemos que nossos dados são sensíveis e devemos protegê-los o máximo possível, então, pense nisso quando criar suas chaves PIX. Quais delas dizem menos sobre você.

As maquininhas, nome popular pelo qual conhecemos os dispositivos de transferência por meio de cartões estão em alta, mas as empresas que gerenciam essas transações cobram taxas e impõem prazos e condições bem diferentes do PIX. Então, os comerciantes já estão se mobilizando para acatar o pagamento de suas vendas via PIX. Eu já paguei as frutas no caminhão, e algumas cópias xerox. Assim começa uma nova forma de transferir recursos financeiros. Muitos clientes de bancos pagam tarifas para terem o direito de usar cartões de crédito e débito, mas com o PIX os cartões podem se tornar caros e obsoletos. Além disso, muitas pessoas possuem contas correntes em bancos, mas não possuem cartões e, com o auxílio emergencial, o número de pessoas bancarizadas aumentou muito. Então, tanto do lado do varejo quanto do lado do consumidor, a tendência é o uso massificado do PIX.

Uma das questões a serem analisadas é que passando a comprar pequenas coisas e pagá-las com o PIX, os bancos/fintechs e o BACEN terão informações que estavam fora dos seus sistemas antes e um big data financeiro se forma. Se já somos observados e monitorados por inúmeros dispositivos e serviços em nosso cotidiano, esse será mais um ponto de coleta de dados sobre nossos hábitos de compra e de consumo e, em conjunto, sobre tendências de mercado ou praça, mesmo respeitando a LGPD (Lei Geral de Proteção aos Dados).

E o futuro, o que reserva para o mercado de pagamentos? Por quanto tempo ainda teremos necessidade do papel-moeda? Esse é um exercício de futurologia, mas os dados estão aí. É só juntar os pontos.

Com graduação em Engenharia, pós-graduações em Marketing e Computação Aplicada à Educação, Mestrado em Educação Matemática e Doutorado em andamento na mesma área, Luis Pacheco tem experiência no mercado financeiro e em empresas digitais, atua como professor no ensino superior, como pesquisador, mentor de startups, autor de conteúdo especializado e YouTuber.

youtube.com/c/LuisFernandoPachecoPereira

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