Sou Economista em meio ao “novo normal”

Igor Lucena (*)

Até 2020 o trabalho da maioria dos economistas estava focado na análise do controle da inflação, na manutenção dos níveis aceitáveis de desemprego, na compreensão de como funcionavam os mercados e consequentemente os agentes que fazem parte de seu funcionamento, as empresas, as famílias e os Governos.

Entretanto, a pandemia de 2020 causou uma mudança necessária no trabalho do economista, de tal modo que o inseriu definitivamente dentro das empresas e transportou seu espectro de análise e pensamento, que outrora fora mais ligado ao mercado financeiro ou a academia, para a economia real. O economista volta sua visão para a produção e para o consumo, desta vez inserido no mundo dos negócios.

O economista não mais se torna um profissional intrinsecamente ligado à academia, apesar de que seja lá onde o conhecimento e o debate sobre as novas teorias e as perspectivas são mais aprofundados. O economista passa a conversar diretamente com os agentes da sociedade sobre a nova dimensão das relações comerciais, financeiras e sociais, porém sem sonhos ou arroubos de que viveremos uma “nova economia” na qual as pessoas seriam teoricamente mais “inclusivas” ou apresentariam um maior tipo de “empatia” para com o outro.

Muitas suposições foram arroladas sobre um mundo “totalmente diferente” que iria emergir no pós-Covid 19, em que as necessidades humanas seriam transformadas radicalmente. O trabalho do economista é sem dúvida colocar o “pé no chão” de várias pessoas que costumam desenhar o futuro alternativo sem nenhuma grande evidência do passado, lembrando que passamos pela gripe espanhola em 1918 e quando chegamos em 1921 o mundo continuou no seu ritmo sem grandes alterações fundamentais.

O trabalho do economista será para as famílias apresentarem realidades que não vão se alterar tanto assim, pois a tecnologia e o enorme volume de recursos financeiros para a produção em massa de uma vacina estão à porta, o que significa que, após a imunização de bilhões de pessoas, o uso de máscaras, a mania por limpeza e a utilização de álcool em gel 70% em todos os locais talvez se torne algo em desuso.

Para os trabalhadores, a grande mudança que encontramos foi a massificação do home Office para aqueles que puderam adotar esse modelo que pode até parecer fácil e prático à primeira vista, porém já no serviço público, que adota parcialmente esse modelo, os trabalhadores nesse sistema são menos reconhecidos e demoram mais a ser promovidos. Muitos se esquecem de que irão pagar mais energia, mais água e haverá outros custos que eram da empresa e agora irão tirar do próprio salário.

Vale a pena “pagar para trabalhar” com esse ponto de vista? Será que a legislação trabalhista não deve forçar as empresas a colocar cadeiras ergonômicas na casa de todos que trabalham em home Office? Essas são dúvidas que podem pôr o modelo em ‘Xeque’ para as duas partes. Quem achava que a venda de carros era algo do passado e que todo mundo iria entrar no modelo de Sharing Economy, provavelmente viu seus planos serem alterados quando a Covid-19 foi disseminada na sociedade.

A busca por carros próprios vem aumentando semana a semana e deve voltar a ser uma tendência positiva. Vale lembrar que a TESLA está com suas ações em uma alta histórica, e esse movimento deve ser seguido nos próximos meses pela Volkswagen, General Motors, Toyota, PSA e demais montadoras globais.

O principal trabalho dos economistas nas empresas será antever problemas, analisando as influências que a política nacional e internacional pode causar nos negócios, bem como os efeitos de como choques como pandemias, guerras, petróleo, novas tecnologias e padrões de consumo podem criar riscos, mas também, ao mesmo tempo, oportunidades para os empresários e os executivos.

Vale lembrar que os economistas devem chamar a atenção das empresas não apenas em aspectos de tendências, mas principalmente focar a geração de caixa (Cash Flow), o retorno dos investimentos (ROI), o retorno sobre o patrimônio (ROE) e outras métricas que geram valor e riqueza para os acionistas hoje.

Esta também é uma oportunidade para as universidades repensarem o papel da formação dos economistas, uma profissão que vem cada vez mais ganhando importância, principalmente por sua interdisciplinaridade, mas que ainda carece de uma integração maior e mais positiva com as empresas e a sociedade.

(*) – Economista e empresário, Doutorando em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, é membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da da Associação Portuguesa de Ciência Política.

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