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Por que empresas ignoram o impacto do ICMS na precificação e margens de lucro

em Destaques
segunda-feira, 09 de junho de 2025

Especialista alerta para os efeitos do ICMS no fluxo de caixa e na competitividade de negócios em setores como varejo, indústria e agronegócio; má gestão do imposto pode distorcer a formação de preços e gerar prejuízos

A carga tributária no Brasil é um dos maiores desafios para empresas de todos os portes. Mas entre os diversos impostos, o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) se destaca por sua complexidade e impacto direto na operação. Apesar disso, muitos empresários ainda subestimam o peso que ele tem na precificação de produtos, no fluxo de caixa e nas margens de lucro — o que pode comprometer a saúde financeira do negócio.

“O ICMS é um imposto indireto que incide em praticamente todas as etapas da cadeia de produção e distribuição. Sua má gestão pode gerar distorções significativas na formação de preço, erodir margens e até criar passivos fiscais inesperados”, afirma Edna Dias, advogada tributarista especializada em impostos indiretos.

Erros comuns: crédito acumulado, bitributação e ausência de planejamento
Entre os equívocos mais frequentes estão o desconhecimento das alíquotas interestaduais, o acúmulo de créditos de ICMS que não são aproveitados corretamente e a falta de análise estratégica sobre regimes especiais. Em setores como o varejo e a indústria, por exemplo, é comum que empresas deixem de recuperar créditos gerados na compra de insumos ou produtos destinados à revenda.

“O empresário foca em vender mais, mas ignora o impacto do ICMS sobre cada etapa da operação. Muitas vezes, há lucro na venda, mas prejuízo no caixa por conta do descompasso entre o imposto a recolher e o imposto a recuperar. Isso acontece muito em redes de varejo que operam com centros de distribuição em diferentes estados”, explica Edna.

Além disso, a ausência de um planejamento tributário detalhado pode gerar bitributação, principalmente em transações interestaduais com produtos sujeitos à substituição tributária, ou quando há erro na definição do contribuinte responsável.

Preços defasados e perda de competitividade
Outro ponto de atenção está na formação de preços. Empresas que não incorporam corretamente o ICMS no cálculo de preços de venda — seja por erro contábil ou por falta de entendimento do regime fiscal aplicável — acabam oferecendo preços defasados ou repassando custos desnecessários ao consumidor, perdendo competitividade frente a concorrentes mais estruturados.

“Em um cenário de concorrência acirrada e margens apertadas, erros no gerenciamento do ICMS são fatais. É como sangrar lentamente sem perceber. Além do prejuízo imediato, a empresa pode comprometer seu posicionamento no mercado”, alerta a especialista.

Recomendações da especialista
Para mitigar riscos e aumentar a eficiência tributária, Edna Dias elenca uma série de medidas que devem fazer parte da rotina de gestão das empresas:
• Auditorias fiscais recorrentes: Permitem identificar distorções na apuração do ICMS, detectar erros de escrituração e recuperar créditos acumulados que muitas vezes são negligenciados. Essa prática também reduz o risco de autuações e penalidades em fiscalizações.

• Adoção de sistemas de gestão tributária integrados ao ERP da empresa: Automatizar os processos reduz falhas humanas, garante maior controle sobre a apuração dos tributos e facilita o monitoramento de obrigações acessórias. Além disso, permite análises mais estratégicas sobre impactos tributários nas operações.

• Capacitação contínua da equipe fiscal e contábil: Em um cenário de constantes mudanças legislativas e interpretativas, manter os profissionais atualizados é essencial. Isso inclui treinamentos sobre regimes de tributação, novas decisões do STF e STJ, e atualizações das secretarias estaduais de Fazenda.

• Consulta a especialistas em tributos indiretos: Buscar assessoria jurídica especializada é fundamental para revisar contratos, estruturar operações interestaduais e entender as particularidades de regimes como substituição tributária, benefícios fiscais regionais e operações de exportação.

“O ICMS é uma peça central na engrenagem tributária das empresas brasileiras. Ignorá-lo ou tratá-lo de forma superficial pode comprometer o resultado do negócio e expor a companhia a riscos desnecessários. Um bom planejamento tributário, aliado à tecnologia e capacitação, transforma o ICMS de vilão a aliado da competitividade”, finaliza Edna.