
Panorama de distribuidoras de tecnologia inclui enfrentar diferenças regionais e burocracia, demandando agilidade em infraestrutura e planejamento interno de entregas e remessas
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, falar de desafios logísticos faz parte do cotidiano, ainda mais quando se trabalha com distribuição de tecnologia. Uma empresa ou operador logístico que atua no estado de São Paulo tem desafios bem distintos do que aqueles situados em outras regiões do país. E não estamos falando apenas do valor do frete com base na distância, mas de infraestrutura para atendimento ao cliente pós-venda. Em resumo, são diferentes planejamentos estratégicos.
Juranilson Santos, diretor de Logística da WDC Networks – distribuidora nacional de tecnologia que atua nos segmentos de Telecomunicações, Áudio e Vídeo Profissional, Cibersegurança, Infraestrutura de Redes, entre outros – com sede em São Paulo e unidades em Ilhéus e Simões Filho, na região metropolitana de Salvador (BA), sabe muito bem o quanto precisa agilizar seus processos internos de expedição para manter a competitividade da companhia. A WDC fechou o ano de 2024 com quase R$ 840 milhões em receita líquida. Para viabilizar este resultado, o executivo afirma que precisou vencer cinco grandes desafios logísticos, como: escassez de mão de obra qualificada; dimensões continentais e desigualdades regionais; infraestrutura de transporte; centralização da indústria e demanda na região Sudeste; e logística reversa para atendimento pós-venda.
“Em logística, o mercado de distribuição no Brasil enfrenta grandes desafios para fazer a economia girar. O Mapa da Logística 2025, estudo de mercado divulgado recentemente pela companhia Loggi, mostrou que a cada sete segundos sai uma encomenda do e-commerce para entrega, comprovando a relevância e complexidade desse segmento que só cresce no Brasil e no mundo. A distribuição B2B tem uma série de etapas logísticas próprias, pontos importantes a se considerar quando se busca um serviço eficiente e ao mesmo tempo rentável”, diz Santos.
1 – Escassez de mão de obra
A primeira dificuldade apontada pelo especialista em Logística da WDC é uma conjunção de escassez de mão de obra qualificada para algumas vagas e a falta de candidatos para outras. Enquanto cursos técnicos e superiores em Logística estão aumentando no país possibilitando uma formação de mão de obra qualificada, é preciso também formar profissionais técnicos para ajudar no suporte a máquinas e sistemas operacionais que estão cada vez mais inteligentes.
Para Santos, por mais automatizado que seja um centro de distribuição ou armazém logístico, ainda existe a necessidade de encontrar profissionais para preencher vagas com perfis mais operacionais como conferentes de estoque, motoristas, ajudantes etc. que não atraem muito a atenção de candidatos, mas são tão importantes quanto outros cargos para o sucesso do processo logístico.
2 – Dimensões continentais e desigualdades regionais
O diretor de Logística da WDC também afirma que atuar com distribuição no Brasil a partir do Nordeste para atender o mercado do Sul e Sudeste, onde está a maior concentração de demanda, é um dos grandes desafios para um operador logístico se manter competitivo. “O tempo todo sou comparado com o valor do frete e tempo de entrega de empresas que operam a partir do Sudeste. Isso demanda muito controle e planejamento interno”.
Para vencer essa batalha desigual, santos explica que a WDC “tira a diferença dentro de casa”, ou seja, mantém processos ágeis e bem controlados no qual todo pedido que entra é emitido no mesmo dia e qualquer produto que dê entrada no centro de distribuição é processado rapidamente, ficando disponível para venda em apenas três horas. A parceria com transportadoras que lidam com grandes volumes também ajuda na expedição de caminhões que saem diariamente da Bahia para o Sudeste, possibilitando realizar entregas em até 72 horas, mantendo dessa forma a competitividade.
Visando manter essa operação cada vez mais viável e ao mesmo tempo expandir mercados, a WDC decidiu em 2025 descentralizar seu estoque e inaugurou, em março, um Centro de Distribuição em Itajaí (SC), para receber produtos e realizar os trâmites de importação no porto local e, assim, aproximar-se cada vez mais de mercados estratégicos como a Região Sul, que hoje é responsável por 15% do faturamento da companhia, além do estado de São Paulo, diminuindo o tempo de entrega para 48 horas.
3- Infraestrutura de transporte
Mesmo com portos em Ilhéus e Salvador, a cabotagem não é uma opção viável de transporte para WDC por lidar com produtos fracionados ou de menor porte – algo em comum com outras diversas distribuidoras que não conseguem lidar com os diferenciais de custo e tempo de frete.
Já no modal de transporte por trens, esse tipo de operação também não é a melhor opção. Santos explica que mesmo utilizando a Transnordestina, o resquício militar de usar diferentes bitolas nos trilhos por questões de segurança impede a integração entre a região Norte e Sul do país. O frete aéreo, por sua vez, também não chega a todos os destinos com facilidade, precisando muito do suporte rodoviário para o last mile (última milha) até a cidade destino.
4- Centralização da indústria e demanda na região Sudeste
Apesar da presença na Bahia conferir à WDC muito mais competitividade no Norte-Nordeste, Santos aponta que isso também vem com outros desafios, pois o volume de entregas é bem maior para o Sudeste. “É bem mais fácil mandarmos dez caminhões para São Paulo do que um caminhão cheio, fechado, para Fortaleza. O volume de pedidos para outras regiões do país em comparação ao Sudeste é bem menor, isso demanda muito controle interno para lidar com essas diferenças de concentração econômica”, explica.
5- Logística reversa no atendimento pós-venda
Lidar com distribuição em tecnologia quer dizer que o trabalho não se encerra com a entrega do produto, mas continua com distintos serviços e suporte técnico. Quando algo não procede como indicado, o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) é acionado e faz uso de atendimento guiado, tutoriais por escrito ou vídeos para sanar o problema do cliente. Caso isso não dê resultado, é preciso buscar o produto no cliente, trazer de volta para o centro de distribuição ou laboratório técnico da empresa para conduzir os testes apropriados para conserto ou devolução do equipamento. É um trabalho pontual, “de formiguinha” em um país de dimensões continentais e com seus desafios logísticos específicos.
Diferentes “Brasis logísticos”
Segundo a Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL), para um mercado de receita bruta operacional de R$ 192 bilhões, a distribuição no Brasil, em particular a de Tecnologia, enfrenta desafios tão distintos quanto as diferentes regiões que o compõem. Em tempos nos quais se busca integrar Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial (IA) para automatizar e acelerar processos, é preciso olhar com cuidado para distintas etapas – e suas demandas particulares – que compõem a logística que alimenta os negócios e movem o país.
“Logística, no Brasil, não é apenas sobre vencer distâncias, é sobre enfrentar realidades múltiplas a cada remessa. É jogar xadrez em um tabuleiro que muda o tempo todo. Quando se entende que cada entrega leva mais do que um produto, leva a reputação da empresa e a confiança do cliente, a logística deixa de ser uma área de apoio e se torna um dos pilares mais estratégicos do negócio. É aí que começa a diferença entre quem apenas entrega e quem transforma a economia”, resume Juranilson Santos.


