
Pressão financeira leva empresários a buscar alternativas para adquirir ativos sem comprometer capital de giro
A manutenção dos juros em patamar ainda restritivo continua redesenhando as decisões financeiras de pequenas e médias empresas no Brasil. Com crédito bancário mais caro e maior seletividade na concessão de financiamento, empresários passaram a buscar alternativas para expandir operações sem comprometer capital de giro. Nesse movimento, o consórcio deixou de ser visto apenas como instrumento de planejamento patrimonial de pessoas físicas e passou a ganhar espaço como ferramenta empresarial.
Para Leonardo Baldez Augusto, economista, educador financeiro, consultor empresarial e fundador da ISF Crédito, ecossistema especializado em crédito, consórcio e meios de pagamento voltado a micro, pequenas e médias empresas, a mudança reflete uma adaptação prática ao custo do dinheiro no país. “Quando o crédito tradicional encarece, o empresário precisa reorganizar a forma como expandir. Muitos perceberam que assumir financiamento com parcelas elevadas e juros compostos pode pressionar a operação justamente no momento em que a empresa precisa preservar caixa para crescer”, afirma.
A decisão mais recente do Comitê de Política Monetária manteve o debate sobre custo de crédito no centro das decisões empresariais. Embora a Selic tenha iniciado movimento de redução em 2026, a taxa segue em 14,50% ao ano, nível ainda elevado para padrões históricos brasileiros, segundo o Banco Central.
Mudança no comportamento empresarial
O crescimento do setor de consórcios ajuda a explicar essa migração. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios mostram que o sistema encerrou 2025 com recorde de 5,16 milhões de cotas vendidas, alta de 15% em relação ao ano anterior, com R$500,27 bilhões em créditos comercializados. Já no primeiro bimestre de 2026, o número de participantes ativos chegou a 12,85 milhões, novo recorde histórico.
Na prática, a modalidade tem sido usada por empresas para aquisição de caminhões, veículos comerciais, máquinas industriais, equipamentos agrícolas, imóveis corporativos e até expansão estrutural. “Há uma mudança importante de mentalidade. O empresário deixou de olhar o consórcio apenas como compra parcelada e passou a enxergar a modalidade como ferramenta de planejamento financeiro. Dependendo da estratégia, ela permite crescer sem consumir linhas tradicionais de crédito que poderiam ser necessárias para capital de giro ou emergências operacionais”, diz Baldez.
A pressão financeira sobre pequenos negócios ajuda a contextualizar esse movimento. Dados do Sebrae apontam que acesso a crédito continua entre os principais gargalos para micro e pequenas empresas, especialmente em momentos de juros mais altos e maior rigor bancário.
Preservar caixa virou prioridade
A lógica empresarial por trás dessa escolha está ligada à preservação de liquidez. Em vez de comprometer o caixa com entrada elevada ou parcelas carregadas por juros bancários, parte dos empresários passou a estruturar aquisições dentro de planejamento de médio e longo prazo.
Segundo o especialista, esse comportamento aparece com força entre negócios que precisam expandir capacidade sem elevar risco financeiro no curto prazo. “Uma empresa que precisa renovar frota, ampliar estrutura ou comprar equipamentos precisa avaliar não apenas o valor do bem, mas o impacto daquela decisão sobre a saúde financeira da operação. O problema de muitas empresas não está na falta de demanda, mas em decisões financeiras mal calibradas”, afirma.
No agronegócio, a lógica também ganhou força, especialmente entre produtores que precisam renovar maquinário ou ampliar ativos produtivos diante de crédito mais seletivo. “O produtor rural e o pequeno empresário têm algo em comum, eles dependem de previsibilidade financeira. Quando o custo do crédito sobe, buscar alternativas estruturadas deixa de ser opção e passa a ser necessidade”, diz.
Para o economista, mesmo com eventual continuidade do ciclo de queda da Selic ao longo do ano, o custo efetivo do crédito para empresas deve seguir pressionado, já que spreads bancários e critérios de risco continuam elevados.




