Pandemia e conflitos: como preparar a cadeia de valor em períodos de crise

Amanda Baldochi (*) e Thaianne Lourenço (**)

Durante dois anos de isolamento social, na tentativa de conter o alastramento do vírus da COVID-19, o mercado internacional foi contraído. Por um lado, diversas fábricas ficaram paradas por escassez de matérias-primas importadas, pois o comércio internacional se viu afetado pelo fechamento de portos e aeroportos, por outro, o fechamento das economias freou o consumo, o que diminuiu a demanda por diversos produtos.

Agora, com a guerra entre Rússia e Ucrânia, as cadeias de suprimento globais voltaram a ser fortemente impactadas havendo um aumento dos preços de diversos produtos exportados por esses países, como derivados de petróleo e gás natural. Sob uma perspectiva de sustentabilidade, o que podemos analisar desses acontecimentos?

Só para dar um exemplo, No Brasil, há uma preocupação de todo o setor do agronegócio tendo em vista a forte dependência da nossa produção agrícola de fertilizantes importados desses dois países, produtores de insumos e commodities agrícolas.

De acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), mais de 80% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados grande parte da Rússia. Essa alta dependência de insumo produzido a milhares de quilômetros de distância também se refletem no preço final da produção, pois os custos logísticos têm impacto significativo.

No estado do Mato Grosso, maior consumidor de fertilizantes do país, por exemplo, o preço desses insumos já correspondia por cerca de 30% do custo de produção dos grãos em 2019, de acordo com a ANDA. Como as empresas podem se preparar para esses cenários adversos?

O primeiro passo é mapear sua cadeia de valor para entender quais serão os temas materiais para as empresas. A forma mais assertiva de realizar este procedimento é ouvindo de seus stakeholders internos e externos, quais as questões mais relevantes e quais os maiores riscos que eles enxergam.

Uma forma de monitorar a percepção das partes interessadas é por meio de uma metodologia denominada HotSpot Analysis, ou “Análise dos pontos críticos”, que consiste em: identificar e priorizar preocupações e demandas relacionadas a um setor, empresa, produto ou marca; combinar uma análise da literatura com entrevistas com stakeholders de uma determinada cadeia de valor; encontrar as lacunas e definir planos de ações de melhoria.

A Fundação Espaço ECO atua na elaboração de estudos de percepção e diagnóstico utilizando essa metodologia, que auxilia a mapear os interesses e principais riscos da cadeia de valor. Esses riscos podem ser acompanhados e minimizados por meio da identificação de hot topics que apoiarão na estratégia de sustentabilidade das empresas.

A metodologia EcoVadis também é muito utilizada pelas indústrias tanto para se autoavaliarem quanto para avaliarem seus fornecedores, apoiando sua estratégia de compras sustentáveis. A EcoVadis avalia 21 critérios de sustentabilidade que perpassam todo o ciclo de vida dos produtos, levando em consideração problemas que podem ocorrer não apenas com fornecedores diretos, mas também fornecedores de 2º ou 3º nível.

Em relação à avaliação de fornecedores, a Fundação Espaço ECO também apoia na elaboração de um questionário avaliativo considerando critérios de sustentabilidade e as dimensões de ESG (dimensões ambientais, sociais e de governança).

O diferencial está na co-criação dessa avaliação em conjunto com as empresas e a transformação dessa avaliação em uma ferramenta digital e automatizada, facilitando a interação com fornecedores, trazendo mais transparência, mais rastreabilidade das informações, centralização e visão ampliada da coleta de dados, otimizando tempo e esforço na captura de respostas.

Por meio desta captura de dados, é possível identificar oportunidades de parcerias e de ofertas, a partir de análises qualitativas, de produtos e serviços para gerar oportunidades de negócio e suportar o fornecedor em categorias em que ele se encontra defasado. Já metodologia de Avaliação do Ciclo da Vida (ACV) considera os aspectos ambientais das entradas e saídas de cadeias de valor completas, desde o fornecimento de matérias-primas até seu descarte ou reciclagem.

Esses estudos calculam tanto quais os aspectos ambientais mais significativos de um processo ou produto, quanto em qual etapa do ciclo de vida há maior impacto ambiental. A pegada de carbono e a pegada hídrica estão incluídos na metodologia de ACV, mas podem ser analisados separadamente, ajudando as empresas a identificarem em qual etapa da cadeia de valor há maior emissão ou consumo e, então, focar em ações de melhoria que mais contribuem em termos de impactos e, portanto, onde pode haver reduções significativas.

A Fundação Espaço ECO ajuda as empresas a desenvolverem todos esses diferentes tipos de estudos, considerando as particularidades no setor. Em um cenário tão instável quanto o atual, o mapeamento da cadeia de valor e dos potenciais riscos de cada elo nunca foi tão vital para o desempenho e longevidade das empresas.

Como a sua empresa está fazendo gestão da sua cadeia de valor? Ela está preparada para responder de forma resiliente a esse futuro cada vez mais imprevisível?

(*) – Analista de Sustentabilidade Sênior na Fundação Espaço ECO; (**) – Analista de Sustentabilidade Aplicada (www.espacoeco.org.br).

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