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O valor da experiência em meio à era da IA

em Destaques
quinta-feira, 05 de março de 2026

Apesar do etarismo presente no mercado de trabalho, mudanças demográficas, decisões complexas e o avanço da tecnologia evidenciam a vantagem da maturidade

O envelhecimento da população no Brasil já altera a composição da força de trabalho. Pessoas com 45 anos ou mais representam mais de 40% da população em idade ativa, segundo o IBGE, e a projeção é que, até 2030, o país tenha mais pessoas acima de 60 anos do que crianças e adolescentes de até 14 anos, inversão histórica da pirâmide etária. Apesar desse contexto, trabalhadores mais velhos ainda enfrentam barreiras à progressão profissional, fenômeno conhecido como silver ceiling, tema que ganha espaço no debate sobre gestão de pessoas e transformação do trabalho no StartSe RH Leadership Experience, que acontece nos dias 26 e 27 de março de 2026, em São Paulo.

Ao mesmo tempo, o ambiente corporativo atravessa um período marcado por rápidas transformações tecnológicas, ciclos econômicos mais instáveis e decisões cada vez mais complexas. Nesse contexto, competências associadas ao repertório acumulado ao longo da carreira tendem a ganhar nova relevância nas organizações.

“Durante muito tempo o mercado corporativo confundiu velocidade com sabedoria. A juventude foi tratada como sinônimo de inovação, enquanto a experiência passou a ser vista como algo ultrapassado. O que começa a ficar evidente agora é que organizações precisam de algo que não se constrói rapidamente: repertório acumulado ao longo de diferentes ciclos de mercado”, afirma Piero Franceschi, autor best-seller e sócio da escola internacional de negócios StartSe.

Profissionais mais experientes carregam uma memória concreta de crises econômicas, mudanças tecnológicas e reorganizações empresariais. Esse histórico funciona como uma biblioteca prática de decisões passadas, que ajuda a interpretar cenários de volatilidade com maior precisão. Em momentos de instabilidade, a capacidade de reconhecer padrões e evitar erros recorrentes tende a atuar como mecanismo de equilíbrio dentro das organizações.

Trajetórias profissionais mais longas também costumam incluir experiências de fracasso, reestruturação e retomada, o que contribui para maior estabilidade emocional em ambientes de pressão e incerteza. Outro fator frequentemente associado à maturidade profissional é a menor dependência de validação imediata. Em um contexto em que indicadores de curto prazo e reconhecimento instantâneo se tornaram comuns no ambiente corporativo, profissionais mais experientes tendem a sustentar decisões estratégicas mesmo quando os resultados não aparecem de forma imediata.

Essa trajetória também favorece maior equilíbrio entre velocidade e profundidade nas decisões organizacionais. Em equipes formadas por diferentes gerações, profissionais com mais tempo de carreira frequentemente atuam como contrapeso estratégico, ajudando a distinguir momentos que exigem aceleração daqueles que demandam análise mais cuidadosa.

“Quem já atravessou várias transformações entende que mudanças raramente seguem uma linha reta. Existem avanços, recuos e momentos de ambiguidade. Essa vivência permite trazer mais serenidade para decisões em ambientes de incerteza”, afirma Franceschi.

A experiência acumulada ao longo de diferentes ondas de transformação — da digitalização da economia à reorganização recente do trabalho — também amplia a capacidade de leitura sistêmica das organizações. Profissionais mais experientes tendem a compreender com maior clareza as interdependências entre áreas, processos e estratégias, reduzindo riscos de decisões fragmentadas.

Paradoxalmente, o avanço da inteligência artificial também tende a ampliar o valor desse repertório. Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, a vantagem competitiva não está apenas na operação de ferramentas tecnológicas, mas na capacidade de formular perguntas relevantes e interpretar respostas complexas.

“A inteligência artificial não premia apenas quem sabe operar ferramentas, mas quem tem repertório para fazer as perguntas certas. Em um mundo inundado por dados, a qualidade da pergunta passa a depender da qualidade da experiência acumulada”, diz Franceschi.

Além disso, profissionais mais experientes costumam carregar um capital social consolidado, formado por redes de confiança construídas ao longo de anos de relacionamento profissional. Em negociações, parcerias e decisões estratégicas, esses vínculos funcionam como ativos intangíveis que ampliam a capacidade de articulação das organizações.

A maturidade profissional também desempenha papel relevante na formação de novas lideranças. A transferência de conhecimento prático, construída a partir de experiências reais de decisão e execução, tende a acelerar a curva de aprendizado de profissionais mais jovens e reduzir custos de erro dentro das empresas.

Em um mercado de trabalho que envelhece e atravessa transformações tecnológicas aceleradas, a experiência tende a ganhar novo peso nas organizações. Mais do que tempo de carreira, o repertório acumulado contribui para interpretar cenários, reduzir riscos e sustentar decisões em ambientes complexos. Nesse contexto, o desafio das empresas passa a ser estruturar modelos de gestão capazes de integrar velocidade tecnológica, aprendizado contínuo e diferentes gerações no ambiente corporativo.