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No campo da IA, a visibilidade de hoje não garante a reputação de amanhã

em Destaques
segunda-feira, 20 de julho de 2026

Alex Cabral (*)

A busca baseada em inteligência artificial (IA) já é utilizada por impressionantes 50% dos consumidores e profissionais online em todo o mundo. O dado é de um relatório da consultoria McKinsey, que também aponta que 45% dos usuários utilizam essas ferramentas para tomar decisões de compra enquanto 44% afirmam que a busca por IA é sua “principal e preferida fonte de informações”, bem à frente da busca tradicional, com 31%.

No Brasil, aproximadamente 34% do total de 131 milhões de brasileiros conectados digitalmente usam com frequência os chatbots com IA, segundo o estudo Digital Retrospective, realizado pela empresa de análise de mídia Comscore.

Trazendo para o universo do agronegócio, o fato é que o uso da IA está mudando radicalmente a forma como os produtores rurais, agrônomos, consultores e gestores de cooperativas encontram marcas, avaliam tecnologias e tomam decisões no agronegócio.

Logo após a digitalização impulsionada por aplicativos, grupos de WhatsApp e redes sociais para troca de informações no campo, os profissionais do agro estão rapidamente recorrendo à busca por IA (por meio de ferramentas como ChatGPT, Gemini, Perplexity, Claude, além do Modo IA do Google) para comparar especificações de maquinário, analisar eficiência de defensivos, tirar dúvidas sobre cultivares e descobrir novas soluções de Agtechs.

Do outro lado, se antes a grande preocupação das marcas do agronegócio era disputar as primeiras posições do Google para termos como “melhor software de gestão agrícola” ou “fungicida mais eficiente para soja”, agora o foco se vira para se tornarem relevantes para a IA, principalmente quando o algoritmo é questionado em comparações diretas entre concorrentes do setor.

Porém, essa corrida dos players do agro para figurar nas buscas de IAs me fez refletir se o mercado está fazendo a pergunta certa. A questão não é se vale a pena investir para a sua marca aparecer nas recomendações de uma IA para o produtor rural. O que deve ser questionado é se essa aparição, quando ocorre, possui alguma durabilidade em termos de reputação.

Os dados disponíveis sugerem uma resposta curta e grossa: não.

A alta volatilidade das recomendações no campo digital
Diferentemente do ranqueamento tradicional do Google (SEO), no qual as posições dos sites das empresas flutuam de forma gradual e previsível conforme atualizações conhecidas de algoritmo, a presença em mecanismos de busca por IA comporta-se de maneira caótica.

O conjunto de fontes que uma IA cita para recomendar um híbrido de milho, um trator ou uma plataforma de agricultura de precisão pode se recompor quase por completo dentro de um único mês. Isso quer dizer que não há garantia de que uma marca citada hoje como “a tecnologia mais confiável da safra” continuará sendo mencionada amanhã.

Um estudo da empresa de dados digitais Similarweb rastreou marcas que apareciam em 86% das respostas de IA sobre determinado assunto num período, e viu essa presença cair para 14% no período seguinte. Na prática, é como se uma indústria do agro fosse citada em quase nove de dez recomendações durante um mês e, no mês seguinte, em pouco mais de uma a cada dez.

A fragmentação entre plataformas agrava ainda mais o quadro para o setor. Uma análise de 680 milhões de citações, feita pela empresa americana Averi, identificou que apenas 11% dos domínios citados pelo ChatGPT também são citados pela Perplexity.

Isso comprova que uma fabricante de insumos ou uma Agtech pode dominar a conversa em um assistente virtual e ser praticamente invisível em outro, ao mesmo tempo, para o mesmo consultor agronômico que faz a pesquisa.

E a relação com o SEO tradicional que as equipes de marketing e comunicação do agro passaram anos tentando dominar também não garante nada: a própria McKinsey descobriu que o conteúdo do site institucional ou portal da marca costuma responder por apenas 5% a 10% das fontes que a IA usa para montar uma resposta. Estar na primeira página do Google não garante que a IA vá recomendar o seu produto ou serviço.

A armadilha das promessas de curto prazo
Diante desta realidade, formou-se rapidamente uma indústria que vende o controle sobre o incontrolável. Consultorias de Generative Engine Optimization (GEO) prometem inflar as taxas de citação de marcas agrícolas em semanas, tratando a menção de uma máquina como um troféu estático. Trata-se de uma promessa estruturalmente equivocada. Vender previsibilidade em um ambiente cuja mecânica é volátil por natureza é o caminho mais rápido para queimar orçamento de marketing no setor.
Há uma distinção técnica que explica o porquê disso, mas que é de conhecimento de poucos gestores e lideranças no agronegócio:
Existem dois tipos de conquistas possíveis nesse ambiente de visibilidade nas IAs.

Uma é o que se pode chamar de conquista de recall, que se refere ao momento em que o sistema de IA busca informação nova no ato da resposta, algo que pode ser conquistado rápido, em horas ou dias, e que pode desaparecer com a mesma velocidade.

A outra é a conquista de treinamento. Trata-se da presença que fica de fato incorporada ao conhecimento de base dos modelos. Isso leva trimestres ou anos para se formar.

Grande parte do mercado de otimização para IA vende resultados imediatos. No entanto, o que realmente constrói reputação digital exige tempo para ser absorvido pelo treinamento dos modelos, garantindo uma presença bem mais durável na memória dos sistemas.

A IA como sintoma, não como causa
Afinal, a presença de uma marca do agro nas respostas de IA importa? Sim, muito! Mas, como sintoma, nunca como o objetivo final.

Uma indústria de insumos, uma marca de máquinas ou um ecossistema financeiro agrícola que aparece com consistência ao longo do tempo, em plataformas diferentes, não alcança esse patamar por ter ajustado um conjunto de tags na semana anterior ou reformulado o site institucional. Ela está lá porque acumulou, ao longo dos anos, o tipo de lastro que qualquer inteligência — humana ou artificial — reconhece como autoridade:

• Comprovação de resultados no campo, ensaios agronômicos e documentação técnica robusta;

• Validação por entidades de pesquisa (como Embrapa, universidades e fundações de apoio à pesquisa agrícola);

• Cobertura jornalística espontânea na imprensa especializada em agronegócio, economia e inovação;

• Presença constante em fóruns, feiras do setor e portais de reputação validadas pelo próprio mercado.

No agronegócio, onde a confiança do produtor é construída safra após safra, o papel estratégico das empresas neste novo ambiente digital reside na construção de autoridade de marca. Isso se faz oferecendo dados técnicos verificáveis, transparência em eficácia e sustentabilidade, e argumentos de valor claros que permitam ao agente de IA avaliar e recomendar a marca de forma legítima.

Perseguir a citação direta do algoritmo é focar no efeito. O foco estratégico das lideranças do agro precisa estar na causa: a construção de uma reputação sólida de longo prazo, a mesma que sempre fez um produtor rural confiar na indicação de um agrônomo de confiança, só que agora, lida e processada por um leitor novo e instável: os robôs de IA.

As empresas do ecossistema agro que tratarem a visibilidade em IA como uma mera métrica de campanha passageira continuarão reféns de uma montanha-russa de dados voláteis. Já as que compreenderem essa presença como uma consequência orgânica de uma reputação técnica e institucional bem estruturada terão uma vantagem competitiva real no campo digital, mesmo quando o próximo algoritmo mudar as regras do jogo sem aviso prévio.

O impacto da Inteligência Artificial no processo de inovação das empresas | Jornal Empresas & Negócios