
Gustavo Michel Arbach (*)
O debate sobre a transformação digital nas bancas ganha contornos definitivos com a Inteligência Artificial generativa fixando-se como infraestrutura operacional básica. No ecossistema de Fusões e Aquisições, onde a volatilidade de mercado exige respostas em tempo recorde, a tecnologia é uma aliada inegável. Dados do mercado nacional indicam que 77% dos profissionais do Direito já utilizam ferramentas de IA em suas rotinas.
Longe de commoditizar a atuação jurídica, essa massificação tecnológica atua como um poderoso catalisador da relevância do advogado estratégico. Em transações de alta complexidade, a tecnologia acelera o processo, mas é a confiança que sela o negócio.
Um dos fenômenos mais intrigantes desse novo panorama é o que podemos chamar de hiperinflação contratual. Alimentada por bancos de dados globais, históricos de transações similares e cruzamentos analíticos exaustivos, a IA generativa possui uma capacidade preditiva sem precedentes. Se no modelo tradicional um contrato de M&A buscava mitigar contingências e responsabilidades até a quinta ou sexta variável, os algoritmos atuais projetam dezenas de ramificações e riscos hipotéticos que sequer estavam no radar original das partes.
O resultado prático dessa engrenagem é a proliferação de minutas cada vez mais densas, repletas de cláusulas de declarações, retenções de preço e regras de transição cirúrgicas. Diante desse oceano de dados e alertas de risco gerados pela máquina, o papel do advogado societário ganha a dimensão de curador transacional.
Cabe ao profissional exercer um crivo analítico rigoroso para filtrar o ruído algorítmico. O preciosismo tecnológico, se não for mediado por uma visão de negócios pragmática, pode criar barreiras artificiais que inviabilizam o fechamento da operação. A missão essencialmente humana, portanto, passa a ser a tradução e a simplificação da complexidade produzida pela máquina, distinguindo o risco estatístico do risco real de negócio.
Ademais, a facilidade operacional introduz vulnerabilidades jurídicas inéditas que demandam atenção estrita do C-Level. As já conhecidas alucinações das ferramentas, que geram jurisprudências ou dados financeiros inexistentes, exigem uma auditoria humana inegociável. Soma-se a isso o risco crítico de quebra de confidencialidade. Alimentar plataformas públicas ou comerciais de IA com dados sensíveis, termos de due diligence ou valores sob sigilo, sem as devidas travas contratuais e arquiteturas privadas de dados, pode comprometer irremediavelmente a operação antes mesmo da assinatura. O operador do Direito contemporâneo precisa ser, obrigatoriamente, letrado em tecnologia e ciente de que a velocidade da entrega não dilui sua responsabilidade civil frente ao cliente.
Sob uma perspectiva estrutural, essa transformação reconfigura o próprio modelo de negócios dos escritórios. Historicamente, as tarefas operacionais e de redação inicial serviam como a escola prática para profissionais juniores. Com a automação célere dessa base da cadeia, as bancas enfrentam o desafio de formar advogados plenos e seniores sem o aprendizado mecânico tradicional. A solução exige um redesenho imediato dos métodos de mentoria. Na liderança do Marcos Martins, entendemos que os profissionais em início de carreira devem ser inseridos diretamente na análise crítica, na governança da IA e na tomada de decisão estratégica, desde o primeiro dia.
Em um ambiente de transição acelerada, corporações e fundos de investimento que buscam segurança perante o mercado e órgãos reguladores devem priorizar parceiros jurídicos que unam sofisticação técnica a pilares rígidos de compliance digital. A IA é uma ferramenta extraordinária para otimizar prazos, mas não substitui a integridade, a reputação e a maturidade consultiva. Em M&A, a tecnologia pode ditar a velocidade e o volume das páginas de um contrato, mas é a insubstituível experiência humana que avaliza a sustentabilidade e o sucesso do negócio.
(*) Advogado especialista em direito empresarial e societário, sócio da Marcos Martins Advogados.




