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Mercados autônomos entram na fase da maturidade no Brasil

em Destaques
sexta-feira, 27 de março de 2026

Com milhares de pontos em operação, o setor descobre que escalar exige dados, automação e inteligência artificial no centro da estratégia

Os mercados autônomos deixaram de ser uma curiosidade tecnológica para ocupar um espaço cada vez mais relevante no varejo brasileiro.

Estimativas do setor apontam que o país já conta com dezenas de milhares de pontos instalados, sobretudo em condomínios residenciais, prédios corporativos, indústrias e hospitais.

O avanço foi impulsionado pela busca por conveniência 24 horas, pela mudança nos hábitos de consumo e pela promessa de custos operacionais menores em relação ao varejo tradicional. Esse crescimento acelerado, no entanto, trouxe à tona um desafio estrutural: como escalar o modelo mantendo controle, margem e previsibilidade financeira.

Na prática, cada mercado autônomo opera como um pequeno varejo completo. Estoque, precificação, reposição, meios de pagamento, logística, prevenção de perdas e controle financeiro acontecem simultaneamente, em dezenas ou centenas de pontos espalhados. “É uma operação distribuída, complexa e sensível a qualquer falha”, explica Evandro Maximiano Filho, CEO da startup BuyBye, com base em Campinas. A empresa faturou cerca de R$ 3 milhões no último ano e projeta dobrar esse valor, alcançando R$ 6 milhões até meados de 2026.

Para sustentar o crescimento, a BuyBye percebeu que o modelo focado apenas em conveniência tinha limites claros. A estratégia passou a ser a implantação de mercados completos dentro dos condomínios, ampliando sortimento, ticket médio e recorrência. O plano inclui parcerias com redes varejistas de médio e grande porte, como Enxuto e Trimais, marcando a transição do minimercado para uma operação mais robusta e preparada para escalar.

O problema é que, quando essa estrutura cresce apoiada apenas em controles manuais e decisões intuitivas, os custos e os riscos tendem a aumentar mais rápido do que a receita. É por isso que muitos projetos funcionam bem no início, mas começam a enfrentar dificuldades quando tentam ganhar escala.

Nesse ponto, a inteligência artificial deixa de ser um recurso de apoio e passa a assumir um papel central. Ao ampliar o controle, a previsibilidade e a capacidade de reação em tempo real, a IA se torna o principal instrumento para reduzir perdas e sustentar o crescimento dos mercados autônomos no Brasil.

Segundo Julian Tonioli, CEO da Auddas, a automação e o uso estruturado de inteligência artificial deixaram de ser apenas uma questão operacional e passaram a ser estratégicos, especialmente para médias empresas.

“Algoritmos de IA analisam histórico de consumo, perfil do público, dias da semana, sazonalidade e até eventos específicos dentro de empresas ou condomínios para prever demanda com maior precisão. Isso reduz rupturas, diminui capital parado e corta perdas por vencimento de produtos, um dos maiores problemas do modelo quando operado de forma manual”, afirma.

Matheus Pinheiro, sócio da Auge, junção da Auddas, referência em estratégia e governança corporativa, e a Stage, especializada em tecnologia e inovação,explica que o impacto aparece de forma ainda mais clara na prevenção de perdas. “Em operações pouco automatizadas, pequenas falhas de controle podem consumir entre 5% e 7% do faturamento. Em modelos orientados por dados, esse índice pode cair para algo próximo de 1% ou 2%. A diferença não está apenas na tecnologia, mas na capacidade de transformar dados em decisões práticas e rápidas”.

Do ponto de vista operacional, segundo Pinheiro as perdas se concentram em dois grandes eixos: o primeiro está ligado ao roubo, que ocorre tanto no ponto de venda quanto ao longo da distribuição. O segundo envolve produtos que se tornam inviáveis para consumo, seja por validade, danos logísticos ou manuseio inadequado.

Neste sentido, a inteligência artificial permite atacar esses problemas de forma integrada. Em vez de escalar equipes inteiras para monitorar câmeras, a IA identifica padrões suspeitos e destaca apenas situações críticas, permitindo que times enxutos monitorem um número muito maior de mercados. O cruzamento de dados revela se o problema está no produto, na gôndola, no horário ou no perfil do público, viabilizando ajustes contínuos. Quando a perda vem de validade ou baixo giro, a IA atua no sortimento e na hiper personalização, adaptando mix, volumes, exposição e margens ao consumo real de cada condomínio.

Estudos de mercado já apontam ganhos relevantes de produtividade e desempenho financeiro em empresas que adotam inteligência artificial de forma estruturada. Em um setor onde a maioria ainda opera com baixo nível de automação, a diferença entre improvisar e operar orientado por dados tende a definir quem cresce de forma sustentável e quem fica pelo caminho.

“Nos mercados autônomos, conveniência já não basta. A próxima fase do setor será definida por quem conseguir transformar tecnologia, dados e inteligência artificial em escala com controle. Quem não fizer essa virada corre o risco de crescer rápido demais para sustentar o próprio negócio”, finaliza Tonioli.