
Giovanna Gregori Pinto (*)
Por que a automação em grande escala deixou de ser uma hipótese futura e já é uma realidade que impacta diretamente startups e empresas em crescimento?
A automação já está embutida em processos cotidianos, desde a triagem de currículos até o atendimento ao cliente. Mas o impacto varia por setor e estágio: em SaaS, fintechs e martechs, já é commodity; em healthtechs de hardware, logística ou biotech, ainda é diferencial. Para startups que vivem de agilidade, a questão não é “se” vão adotar, mas onde automatizar primeiro. Quem ficar só em planilhas e esforço manual perde velocidade competitiva.
• Segundo o relatório Future of Jobs 2025 do Fórum Econômico Mundial, cerca de 44% das habilidades atuais devem ser impactadas pela automação até 2030. Como startups podem se preparar para esse cenário sem perder agilidade e eficiência humana?
A resposta depende do porte da startup:
• 40 a 100 funcionários: a automação deve começar por processos de alto volume e baixa diferenciação, como atendimento de primeira linha, triagem de currículos e gestão de tarefas repetitivas em marketing e vendas. Isso libera times ainda pequenos para se concentrar em produto e crescimento.
• 80 a 200 funcionários: nesse estágio já há camadas de gestão e mais especialização. O foco deve ser integrar automação em análise de dados, finanças e compliance, além de usar IA para acelerar tomadas de decisão gerenciais. Aqui, o risco não é só ineficiência, mas também complexidade excessiva. Automatizar reduz atrito.
• Acima de 200 funcionários: o desafio passa a ser coordenação organizacional. Automação deve apoiar comunicação interna, onboarding, gestão de performance e integração entre áreas. Além disso, começa a ser viável criar times dedicados a “People Analytics” e “Ops + IA” para garantir que humanos e máquinas atuem de forma complementar.
Em todos os portes, a lógica é a mesma: automatizar o que é repetitivo e escalável, mas preservar nas pessoas a tomada de decisão crítica, a proximidade com clientes e a cultura da empresa.
• Quais funções você acredita que serão mais rapidamente redesenhadas pela automação, e quais exigirão novas competências humanas que não podem ser substituídas por máquinas? – As funções repetitivas e transacionais, suporte de primeira linha, processos administrativos e geração de relatórios serão automatizadas primeiro. Até áreas criativas estão mudando: IA já gera rascunhos de design, código e textos de marketing.
As funções que permanecerão essencialmente humanas envolvem criatividade estratégica, julgamento ético, negociação, liderança e empatia. Mas mesmo nelas surgem novas exigências: saber interpretar insights de IA, usar dados em tempo real para decidir e liderar times híbridos (humanos + agentes digitais).
• Quais estratégias práticas de reciclagem de competências e aperfeiçoamento de competências podem ser implementadas por startups em estágio de crescimento para garantir que seus colaboradores acompanhem essa transformação? – Startups não têm tempo para programas de 12 meses. Precisam de formatos ágeis, como:
• micro treinamentos no fluxo de trabalho (ex.: aprender a usar IA generativa em tarefas diárias de marketing),
• job rotation acelerado para dar visão de processos emergentes,
• hackathons internos voltados a integrar IA e automação,
• parcerias com edtechs para acesso sob demanda a trilhas de reskilling e upskilling.
O ritmo precisa acompanhar o crescimento: aprendizado contínuo, “just-in-time”, aplicado direto em problemas reais.
• A automação pode alterar a estrutura organizacional das empresas. Você acredita que veremos times menores e mais especializados, ou um redesenho em rede, com funções híbridas entre humanos e máquinas? – O movimento dominante será times menores e ultraespecializados, porque a automação elimina parte do trabalho operacional. Mas esses times não estarão isolados: vão operar em rede com agentes de IA e ferramentas automatizadas que assumem tarefas periféricas. Ou seja, a estrutura será híbrida: núcleo humano enxuto + ecossistema automatizado flexível. Esse desenho dá velocidade sem perder inteligência crítica.
• Como você enxerga o papel do RH no futuro do trabalho diante da automação em larga escala? – O RH terá papel estratégico, mas muito diferente do modelo atual. Não será apenas executor de processos ou guardião de cultura, será o orquestrador de todos os atores que colaboram para a entrega do produto final: funcionários diretos, terceiros, comunidades externas e até agentes de IA.
O desafio do RH será definir estrategicamente quem deve ser responsável por quê, equilibrando custo, qualidade, agilidade e impacto cultural. Algumas funções poderão ser melhor executadas por agentes automatizados, outras exigirão talentos humanos especializados, e em muitos casos a entrega será híbrida.
Além disso, o RH do futuro deve:
• mapear competências críticas em todo o ecossistema (interno e externo),
• redesenhar trilhas de reskilling para manter pessoas competitivas,
• facilitar integração entre times humanos e digitais,
• preservar engajamento e identidade organizacional mesmo em redes fluidas de colaboradores.
Em resumo, o RH deixará de ser apenas gestor de pessoas para se tornar arquiteto da colaboração ampliada, garantindo que humanos, máquinas e comunidades trabalhem de forma coordenada para a melhor entrega possível.
• Qual a sua visão para os próximos cinco anos: a automação será um risco ou uma alavanca para startups que querem escalar? – Será uma alavanca para quem souber escolher timing e área certa de automação. Adotar cedo demais ou automatizar processos imaturos pode gerar desperdício e desumanização do serviço. Mas quem combinar eficiência de máquina com inteligência humana tende a escalar mais rápido e de forma sustentável. A diferença estará menos em “usar ou não automação” e mais em como, quando e em que processos aplicá-la.
(*) Executiva de RH e fundadora da People Leap.

