
Leandro Oliveira (*)
O dia 27 de julho é marcado pelo Dia Nacional da Prevenção de Acidentes de Trabalho. A data, criada em 1972 para promover a conscientização sobre os riscos no ambiente laboral, nunca esteve tão atual. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial de acidentes de trabalho, com mais de 600 mil ocorrências registradas anualmente. Esses números revelam um desafio persistente e urgente com foco na transformação da cultura de segurança nas empresas brasileiras.
Apesar dos recentes avanços importantes na legislação e na estruturação de programas de prevenção, muitos desses acidentes que ainda ocorrem poderiam ser evitados a partir de medidas simples, integradas e contínuas. Para isso, é fundamental que organizações, colaboradores e todos os envolvidos no ambiente corporativo não tratem a segurança no trabalho apenas como um conjunto de treinamentos pontuais, mas sim, como uma parte intrínseca do DNA organizacional. Ou seja, é uma prática diária que envolve escuta ativa, comunicação transparente e engajamento genuíno com o bem-estar dos colaboradores.
A evolução da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que teve sua última atualização em 2024, sinaliza uma mudança importante nesse sentido. A inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) amplia o escopo de atenção das empresas, reconhecendo que o sofrimento mental e emocional também compromete a saúde ocupacional. Isso, por si só, exige das lideranças uma postura mais atenta, empática e conectada com as dinâmicas reais dos ambientes de trabalho. A norma já está vigente, mas terá caráter orientativo até maio do próximo ano, quando passará a ser obrigatória para todas as empresas no Brasil.
A reformulação da NR-1 reflete um cenário preocupante: entre 2014 e 2024, os afastamentos por saúde mental cresceram significativamente. Em 2024, o Ministério da Previdência Social registrou mais de 472 mil licenças por ansiedade, burnout e depressão — alta de 68% em relação a 2023. O dado reforça a urgência de regulamentar o cuidado integral nas empresas, especialmente diante dos modelos remoto e híbrido. Durante a pandemia, uma pesquisa do LinkedIn mostrou que 62% dos profissionais relataram mais estresse e ansiedade no trabalho com a adoção do home office.
Por isso mesmo, nesse novo cenário empresarial, a tecnologia se mostra uma aliada poderosa na consolidação cultural. Plataformas digitais de comunicação interna e gestão de pessoas permitem levar mensagens, campanhas e alertas de forma ágil, personalizada e mensurável a todos os colaboradores, inclusive os que atuam fora dos escritórios. Mais do que disseminar informações, essas ferramentas criam espaços de escuta, ampliam a participação e promovem o protagonismo de quem está na linha de frente desse processo, aspectos essenciais para a construção de uma cultura verdadeiramente ativa e interligada. E isso é comprovado, pois de acordo com uma pesquisa realizada pela Verint, 7 em cada 10 colaboradores afirmam que a tecnologia no local de trabalho é imprescindível para diminuição dos níveis de estresse e uma atuação mais assertiva.
O resultado dessas dinâmicas integradas é notável. Dados da consultoria Gallup indicam que empresas com comunicação interna eficaz enfrentam 50% menos riscos operacionais e de compliance. Tal fato demonstra que informar bem é uma questão que vai além da eficiência, impactando diretamente na segurança. O engajamento com temas como ergonomia, uso adequado de EPIs, pausas obrigatórias e saúde emocional precisa ser reforçado por meio de campanhas regulares, lembretes inteligentes e indicadores que ajudem a prevenir problemas antes que se tornem acidentes.
Além disso, vale ressaltar a importância da digitalização dos processos de SST (Segurança e Saúde do Trabalho), que permite o registro contínuo de incidentes, a análise preditiva de dados, além da integração entre áreas como RH, jurídico e operacional. Tudo isso implica em agilidade nas respostas, economia de recursos e, principalmente, ambientes laborais mais seguros a todos.
Ao final do dia, vale destacar também que é incumbência das lideranças dar o exemplo. Promover uma cultura de segurança exige coerência entre discurso e prática, disposição para ouvir e corrigir rotas. Afinal, a consciência de que cuidar das pessoas é investimento, não tem custo.
Neste 27 de julho, é imprescindível que a data não se resuma apenas a posts nas redes sociais ou a uma palestra isolada na agenda. A prevenção de acidentes de trabalho precisa ser um compromisso de todos os dias, impulsionado pela tecnologia, guiado pela empatia e sustentado pela gestão. É hora de consolidar de uma vez por todas que segurança não é um evento empresarial, mas cultura.
(*) Diretor do Brasil e de EMEA da Humand.


