A segunda onda

Heródoto Barbeiro (*)

O povo está que assustado. Ainda assim chega a conclusão que o pior já passou e pode voltar a ter vida em sociedade.

A pandemia mais grave da história dura dois anos e com mais de meio bilhão de pessoas infectadas e 55 milhões de mortes. A população acredita que, depois da primeira onda, é possível voltar a vida normal .

Ela tolerou tão mal as medidas de quarentena e distanciamento e quando ocorreu a liberação da primeira onda a população começou a comemorar nas ruas abandonando as medidas de erradicação da doença.

Nas semanas seguintes a pandemia voltou com muito mais mortes. Ninguém podia imaginar, leigos ou cientistas que a maioria das mortes ocorreria durante a segunda onda. Tem-se a impressão que as autoridades estão perdidas diante do progresso da pandemia.

inguém podia imaginar que a pandemia pudesse se espalhar tão rapidamente também pelo Brasil. A doença vinda do exterior e em pouco tempo está em todo lugar. Há até quem acredite que ela é um castigo divino. O fato é que prefeitos, governadores e população em geral esperam por uma ação do governo federal que ninguém sabe qual é.

Nem mesmo o presidente. As notícias que chegam do mundo não são nada animadoras. A Europa, Ásia e América do Norte são as mais afetadas e em pouco tempo as mortes se contam aos milhões. Sanitaristas e epidemiologistas se arriscam a divulgar formas de proteção, para, pelo menos, atenuar a contaminação da doença.

O fluxo de passageiros internacionais diminui, mas não estanca. Com isso não se sabe se novas ondas podem se espalhar pelo mundo. A população se orienta pelas publicações da mídia. As pessoas idosas doentes devem ser as primeiras a serem cuidadas. O passo decisivo é evitar aglomerações, principalmente à noite, quando a população das cidades se juntam em bares e cafés. Não fazer visitas para não levar o vírus para a casa de outras pessoas.

Evitar fadiga e todo esforço físico ajuda a enfrentar melhor o vírus. É preciso manter a higiene do nariz e da garganta com inalações de vaselina mentolada, gargarejo com água iodada e ácido cítrico, infusões de tanino ou folhas da goiabeiras. As reportagens recomendam ainda tomar como preventivo, internamente, qualquer sal de tanino em doses de 20 a 25 gramas por dia, e de preferencia durante as refeições.

O doente, diz a mídia, ao invés de procurar os hospitais, deve, aos primeiros sintomas, ir para a cama. O repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contágio. Receber visitas nem pensar. O povo está assustado com as reportagens sensacionalistas e imagens sobre o aumento do número de mortos. Ninguém resiste a foto de pinhas de corpos aguardando transporte para cemitérios e crematórios. Não bastou o flagelo da guerra, agora é o da peste.

Uma reedição dos cavaleiros do apocalipse. Os aliados ainda debatem na Conferência de Versalhes, na França, que tipo de punição vão aplicar a Alemanha, derrotada na primeira guerra mundial. Nem mesmo os chefes de estado escapam do se acostumou a chamar de gripe espanhola. O presidente americano, Woodrow Wilson, pega a gripe em Paris.

A mídia divide o espaço do noticiário entre a pandemia e os arranjos para uma paz que impedisse uma nova guerra terrível no mundo. Mas os pessimistas de plantão não acreditam nem na paz nem que o mundo estará livre de outras pandemias no futuro. São execrados pelos vencedores do conflito.

Estes acreditam que o nascimento da Liga das Nações, uma sociedade internacional de países, vai consertar o que a humanidade fez de errado no início do século 20.

(*) – Professor e jornalista, realiza palestras e mídia training (www.herodoto.com.br).

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