
Fabiana Monteiro (*)
Da infância simples em Curitiba à liderança do planejamento global de 63 fábricas da Nouryon, Jonas Oliveira construiu uma carreira internacional marcada por estratégia, disciplina, adaptação e proximidade com as pessoas.
Jonas Oliveira vem de uma família com limitações financeiras, mas rica em valores. Nascido em Curitiba, em 1980, é o caçula de três irmãos. Entre as lembranças da infância está a de ter apenas um par de tênis, doado por um primo, que usava para ir à igreja. Desde cedo, surgiu o desejo de mudar aquela realidade — intenção que passou a orientar suas escolhas.
Começou cursando Eletrônica, mas logo percebeu que seu lugar estava no ambiente corporativo. A Administração abriu portas e o levou à Mondelēz, onde iniciou no Planejamento de Produção. Ali, descobriu o poder do raciocínio lógico aplicado à operação e deu os primeiros passos de uma trajetória que se tornaria global.
Foram 12 anos na empresa, com experiências em sete países. Nesse período, o nível de serviço subiu de 89% para 94%, os write-offs foram reduzidos em 17% e o waste em 32%, além da otimização de US$ 16 milhões em inventário. Em 2013, recebeu o prêmio ABCD – Above and Beyond the Call of Duty.
Depois, aceitou o desafio do Grupo Boticário. Foram 212 liderados e 21 plantas em um processo de transformação do planejamento. O service passou de 81% para 93%, a qualidade do inventário de 69% para 85% e o estoque foi reduzido de 17% para 16% da receita, ao mesmo tempo que a operação apoiava um crescimento de 12%. A experiência lhe rendeu o reconhecimento de Melhor Gestor de 2015.
Na Cargill, ampliou sua atuação para a América Latina e, posteriormente, para operações globais. Estruturou governança, redesenhou fluxos e liderou iniciativas de grande impacto, entre elas um projeto no México que evitou mais de US$ 120 milhões em custos. Nesse período, compreendeu que decisões técnicas ganham força quando acompanhadas de visão estratégica, leitura política e sensibilidade humana.
Em busca de novos desafios, decidiu, junto com a família, mudar para a Europa. A Irlanda tornou-se o destino, inclusive pela facilidade do idioma inglês para suas duas filhas. Hoje, Jonas é responsável pelo planejamento de 63 fábricas da Nouryon. Na empresa, o service avançou de 83% para 85%, o DIO caiu de 75 para 72 e o forecast accuracy subiu de 68% para 74%.
Em 2025, liderou a resposta global aos impactos das novas tarifas americanas, redesenhando fluxos logísticos para proteger margens e garantir a continuidade do supply. Em 2026, assumiu a coordenação da Middle East Control Tower, acompanhando cerca de 250 contêineres diariamente em um cenário de forte tensão geopolítica.
Estratégia é também compreender o não dito
Um dos maiores desafios de sua carreira foi aprender a navegar pela política organizacional. Com uma visão originalmente muito técnica, Jonas percebeu que nem tudo é verbalizado dentro das empresas. Existem regras não escritas, expectativas e interesses que também influenciam decisões.
Feedbacks generosos o ajudaram a desenvolver essa percepção. Hoje, considera o pensamento estratégico — olhar o todo, conectar pontos e compreender como a empresa ganha dinheiro — uma das competências fundamentais para o crescimento profissional.
Liderança exige proximidade e adaptação
Quanto mais se sobe na pirâmide corporativa, mais solitária pode se tornar a função. Por isso, Jonas prefere manter proximidade com o time. O café compartilhado, o interesse genuíno e até a vulnerabilidade ajudam a criar vínculos. Para ele, essa proximidade transforma grupos em times e times em resultados.
A experiência internacional também mostrou que cada cultura exige uma forma de liderança. No México, precisou compreender uma dinâmica diferente em relação a compromissos e prazos. Na Europa, encontrou maior rigidez quanto ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Para Jonas, liderança é contexto: o líder precisa adaptar sua abordagem sem perder seus valores.
Um bom planejamento melhora a performance
Houve um tempo em que Jonas enxergava o sucesso como chegar ao topo. Depois de 30 anos de carreira, sua percepção mudou. Hoje, sente-se bem-sucedido quando é útil e quando suas habilidades ajudam as pessoas ao seu redor.
Ele levou para a vida pessoal um conceito comum nas empresas: o planejamento de cinco anos. Trata-se de um plano vivo, revisado e ajustado ao longo do tempo. Compartilha com as filhas onde pretende estar no futuro porque acredita que clareza gera direção.
Costuma dizer que, se sem planejamento uma pessoa chega ao patamar 5, com um bom plano pode alcançar 7 ou 8. O planejamento não garante perfeição, mas amplia as possibilidades e melhora a performance.
Jonas também considera indispensável acompanhar as novas tecnologias. Em sua visão, a Inteligência Artificial não substituirá bons profissionais, mas aqueles que souberem utilizá-la terão vantagem competitiva.
Entre suas recomendações está a leitura de The Infinite Game, de Simon Sinek, obra que reforça uma de suas convicções: bons líderes não trabalham apenas para vencer o trimestre, mas para construir valor no longo prazo.
Sua trajetória reforçou, sobretudo, a crença no poder das pessoas comuns. Para Jonas, não é preciso começar com todas as oportunidades. Com foco, disciplina, planejamento e apoio, pessoas comuns também podem realizar conquistas extraordinárias.
(*) Chairman, CEO da Editora Global Partners – Affiliated to Institute of Coaching at McLean Hospital, associate Harvard Medical School – (ICPA). Conselheira de empresas.



