
Fabiana Monteiro (*)
Da maternidade ao comando da operação latino-americana do MUFG, Juliane Yung descobriu que as decisões mais importantes da carreira moldam a forma de liderar.
Juliane Yung nasceu em São Paulo, em 1980, filha do sino-americano Benjamin e da brasileira Maria Helena. Cresceu em uma família dividida entre duas visões: a mãe acreditava que os filhos deveriam permanecer em casa até o casamento, enquanto o pai defendia a independência desde cedo. Foi ele quem despertou seu pensamento estratégico ao incentivá-la a jogar xadrez na infância.
Estudou no Colégio Bandeirantes e sonhava cursar Engenharia. Após não ser aprovada na USP, ingressou em Administração de Empresas na Fundação Getulio Vargas (FGV), entre 1998 e 2001, e posteriormente concluiu um MBA em Finanças pela Business School São Paulo.
Ainda na graduação iniciou a carreira no mercado financeiro. Após passagens por uma consultoria da família e pela Andersen Consulting, entrou como trainee no ABN AMRO em 2000. Atuou em análise de crédito e gestão de riscos até seguir para o BankBoston, onde se tornou analista de crédito sênior. Em 2006, migrou para a área comercial no ING e, em 2008, foi promovida a vice-presidente. No mesmo ano, casou-se com Fábio.
Em 2010 nasceu Laís. Pressionada pelo ambiente corporativo, Juliane retornou ao trabalho antes do fim da licença-maternidade, decisão da qual hoje se arrepende.
O passo que parecia um retrocesso
Um ano depois, recebeu o convite para deixar o ING e ingressar no MUFG. A mudança parecia um passo atrás: o banco era menor no Brasil e ela assumiria menos responsabilidades.
Durante nove meses refletiu sobre a proposta. Como também planejava ampliar a família, negociou a garantia de receber o bônus do primeiro ano mesmo em caso de gravidez. Em 2012 ingressou no MUFG como diretora, convencida de que algumas escolhas devem ser avaliadas pelo potencial de longo prazo, e não apenas pelos ganhos imediatos.
Arthur nasceu em 2013 e, dois anos depois, Juliane foi promovida a Managing Director, confirmando que a decisão aparentemente arriscada havia sido determinante para sua carreira.
Quando a liderança ganhou outro significado
Em 2017, uma gravidez de gêmeos mudou novamente sua vida. Após perder um dos bebês, recebeu a notícia de que o outro poderia nascer com um problema cardíaco. Léo veio ao mundo em agosto e precisou passar por cirurgia logo após o nascimento. Dessa vez, Juliane decidiu se desconectar totalmente do trabalho para acompanhar a recuperação do filho.
Durante a licença, surgiu um novo desafio: assumir a liderança do Corporate & Investment Banking do MUFG no Brasil. Com o apoio do marido, da família e da equipe médica, aceitou o convite e retornou em janeiro de 2018.
Ela faz questão de diferenciar esse retorno daquele vivido após o nascimento da primeira filha. Em 2010 voltou por medo de perder espaço; em 2018 retornou porque acreditava estar pronta e porque a decisão também fazia sentido para sua identidade profissional. A experiência ampliou sua empatia e reforçou sua convicção de que liderança exige compreender as circunstâncias antes de julgar escolhas.
Liderança sem fronteiras
Em julho de 2023, Juliane foi promovida a Head of Latin America Corporate & Investment Banking do MUFG, passando a liderar as operações da instituição na América Latina. A nova função ampliou sua atuação para diferentes países e culturas. Em 2024, mudou-se temporariamente com a família para os Estados Unidos, experiência que fortaleceu sua capacidade de adaptar a liderança sem abrir mão dos próprios valores.
Para Juliane, a inteligência artificial transformará o mercado financeiro, mas jamais substituirá discernimento, ética, responsabilidade e capacidade de julgamento. Acredita que líderes eficazes não precisam ter todas as respostas, mas saber ouvir, formar equipes complementares e tomar decisões consistentes.
Entre os livros que mais a inspiraram está Outlive, de Peter Attia, pela ideia de que resultados duradouros são consequência de escolhas feitas com disciplina ao longo do tempo.
Ao olhar para trás, Juliane percebe que as decisões que mais impulsionaram sua carreira nunca foram as mais confortáveis. Foi assim ao trocar o ING pelo MUFG, ao retornar ao trabalho durante a recuperação do filho e ao assumir uma liderança internacional.
Os cargos mudaram. Os desafios também.
Mas a forma de decidir permaneceu a mesma.
Porque, no fim, liderar também é renunciar.
(*) Chairman, CEO da Editora Global Partners – Affiliated to Institute of Coaching at McLean Hospital, associate Harvard Medical School – (ICPA). Conselheira de empresas.


