Alessandro Lopes (*)
Quase R$ 2 trilhões circulam todos os anos nas decisões de consumo da população com mais de 60 anos. Segundo o estudo Geração Prateada, esse mercado já representa perto de 20% do consumo privado brasileiro e poderá alcançar 35% até 2044. Mas há uma contradição: empresas disputam esse consumidor enquanto muitas cidades dificultam sua chegada ao comércio, aos serviços e à vida pública.
Esse crescimento reorganiza setores, da saúde ao turismo, das finanças à habitação e do varejo à tecnologia. A longevidade deixa de ser nicho e passa a orientar investimentos, serviços e expansão. Esse público procura autonomia, confiança e experiências adequadas a diferentes modos de envelhecer.
O Brasil tinha 34,1 milhões de pessoas idosas em 2024, segundo o IBGE, e uma em cada quatro continuava trabalhando. Não é um grupo imóvel à espera de cuidados. Trabalha, empreende, sustenta famílias, consome e investe. Parte dessa população, porém, enfrenta baixa renda, exclusão digital e territórios sem infraestrutura.
A economia da longevidade não começa na prateleira. Começa na calçada. Uma mulher de 72 anos pode ter renda, cartão e disposição para consumir. Mas, se o semáforo fecha antes da travessia, a calçada é irregular e o ônibus não oferece segurança, seu poder de compra permanece dentro de casa.
Uma cidade que impede o deslocamento autônomo da população idosa não produz apenas exclusão. Produz perda de consumo, redução da produtividade familiar e aumento de custos públicos. Travessias curtas, pontos sem abrigo e a falta de bancos, sombra ou sanitários retiram pessoas das ruas antes que a venda produza resultado. A acessibilidade deixa de ser apenas obrigação legal e passa a ser infraestrutura econômica.
Cada queda evitada reduz despesas de saúde e o afastamento de familiares do trabalho. Cada deslocamento autônomo amplia a circulação econômica, fortalece o comércio local e prolonga a presença das pessoas na vida produtiva e comunitária. Mobilidade também protege renda e produtividade.
O envelhecimento mudará o mercado imobiliário. O valor de um imóvel dependerá cada vez mais da proximidade entre moradia, saúde, comércio, transporte, cultura e áreas verdes. Apartamentos confortáveis perdem valor de uso quando o edifício não possui elevador, a rua é hostil ou todo deslocamento exige automóvel. Retrofit, adaptação residencial e bairros caminháveis formarão uma nova cadeia de serviços e investimentos.
Essa transformação não pode produzir apenas condomínios especializados para quem pode pagar. Envelhecer em uma região central bem servida é muito diferente de envelhecer em uma periferia distante. A economia da longevidade será inclusiva quando fortalecer centralidades de bairro, distribuir serviços e manter as pessoas próximas de suas redes de apoio.
Urbanismo deixa de ser apenas política pública e passa a ser estratégia econômica. Cidades acessíveis ampliam mercados, fortalecem o comércio de proximidade, valorizam imóveis e conservam pessoas ativas por mais tempo.
Empresas que compreenderem essa transformação conquistarão um mercado crescente. Cidades que a ignorarem tratarão como despesa uma população que movimenta renda, patrimônio, serviços e consumo. O mercado já reconheceu o valor financeiro da população idosa; falta reconhecer que o direito à cidade não pode depender do poder de compra.
A economia do futuro não começa no caixa. Começa no direito de chegar até ele.
(*) Alessandro Lopes é arquiteto e urbanista, mestre em Direito Ambiental e pesquisador em Cidades Criativas e Inteligentes.
